O equívoco da pena de morte


Por Alan Capriles

Parece não haver limites para a maldade humana. Quando pensamos já termos visto de tudo, os noticiários nos surpreendem com casos de extrema violência e crueldade. Até os mais experientes policiais não conseguem esconder o espanto diante do presente quadro de criminalidade em nosso país. E, não exagero em dizer, do mundo.

Toda vez que casos de violência chocam nossa nação é comum se rediscutir a pena de morte. Formadores de opinião, tais como jornalistas, comentaristas e animadores de auditório defendem abertamente a pena de morte em seus programas de televisão. E alguns o fazem com bastante veemência, apelando para casos que mexem com nossas emoções, tais como os abomináveis crimes de pedofilia.

Não há nada mais doloroso do que ter um filho sequestrado, abusado ou assassinado. Por outro lado, sabemos de casos em que pais conseguiram perdoar tais criminosos. O mais famoso deles talvez seja o "caso Ives Ota". Vamos relembrar:

"No dia 29 de Agosto de 1997, Ives Yoshiaki Ota, oito anos, foi seqüestrado por três homens em sua própria casa, na Vila Carrão, Zona Leste de São Paulo. Neste dia ele brincava na sala, com seu primo, sob os cuidados da babá; na madrugada do dia 30 de Agosto, já estava morto com dois tiros no rosto porque reconheceu um de seus seqüestradores. Os seqüestradores faziam a segurança nas lojas de seu pai, sendo que dois deles eram Policiais Militares."

Durante semanas este caso foi amplamente coberto por todos os noticiários da TV brasileira. As lágrimas dos pais comeveram a toda uma nação. Mas o espanto foi ouvir o Sr. Ota declarar aos jornalistas que havia perdoado os assassinos de seu filho. E ainda foi além, fundando um instituto para promover o perdão e a paz.

O próprio Sr. Ota explicou sua atitude: "Acho que perdoar não é dizer: Soltem os assassinos de meu filho. Perdoar é tirar o ódio de dentro de você. Então, perdão é uma coisa e justiça é outra. A justiça tem de ser cumprida."

Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, fazer justiça, para o Sr. Ota, não seria condenar à morte os assassinos de seu filho. "Após o seqüestro e assassinato do garoto Ives, o Sr. Masataka Ota, pai de Ives Ota, começou uma caminhada pelo Brasil, a fim de coletar assinaturas para aprovação da lei pela prisão perpétua agrícola, conseguindo mais de 2 milhões de assinaturas que foram entregues ao Congresso Nacional no dia 13 de Maio de 1999, o Movimento teve impacto nacional na conscientização das pessoas em busca pela Paz." Como se vê, o Sr. Ota defende a prisão perpétua agrícola para crimes hediondos, não a pena de morte.

E pouco importa qual a religião do Sr. Ota, pois não é o que estamos discutindo aqui. O fato é que a sua atitude não somente foi nobre, como também cristã. Mas, para minha surpresa, tenho descoberto artigos a favor da pena de morte justamente em blogs de cristãos. Será esta a vontade de Deus? O Senhor Jesus nos ensinou tal procedimento? A pena de morte seria mesmo a solução para nossa sociedade? Ela acabou, ou sequer diminuiu com a violência em outros países?

Apesar de respeitar a opinião contrária de outros irmãos em Cristo - alguns dos quais não somente conheço, mas em verdade os amo - não posso deixar de esclarecer porque considero a pena de morte um equívoco.

Sou contra a pena de morte. E pelas seguintes razões:

1ª) Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas em que ele se converta de seus maus caminhos (Ez 18:23, 33:11).

2ª) O evangelho é poderoso para converter o mais vil pecador (Rm 1:16). Sabemos que muitos criminosos se convertem dentro da cadeia, ainda que outros sejam falsos crentes (mas isto também acontece aqui fora). Nossa incompetência para evangelizar criminosos não é desculpa para condená-los à morte.

3ª) O apóstolo Paulo se colocou na condição de o maior dos pecadores regenerados, a fim de que não deixássemos de evangelizar ninguém e de crer na possibilidade de conversão de todos (1Tm 1:15,16). Por outro lado, se alguém resiste em se converter, mesmo na cadeia, isso nos daria o direito de matá-lo? Estaríamos no limiar de uma nova "santa inquisição"?

4ª) Nenhum sistema judicial e penal do mundo está livre de cometer injustiças. Não é raro ouvirmos notícias de que alguém estava preso por engano. A pena de morte sempre tira vidas inocentes, mais cedo ou mais tarde.

5ª) A criminalidade não diminuiu em nenhum país em que a pena de morte tenha sido implantada. Assim como as pessoas não vêm a Cristo por medo do inferno, ninguém deixa o crime por medo da pena de morte. As estatísticas confirmam isto, basta pesquisar.

6ª) A pena de morte nada mais é do que a aplicação do "olho por olho e dente por dente". É incontextável que Jesus nos proibiu de continuar com esta prática (Mt 5:38-48). Se fosse para continuar com a pena de morte, Jesus teria ensinado: "matai os que vos maltratam e perseguem"; mas, ao invés disso, Jesus ordenou: "orai pelos que vos maltratam e perseguem".

7ª) "Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê." (Romanos 10:4) Nada temos que ver com a Lei de Moisés. Não somos judeus. Para uma nova aliança, um novo mandamento, que supera o antigo: "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis." (João 13:34) Isto é tão esclarecido nas epístolas (Rm 13:8-10; Gl 5:13-14; Tg 2:8-13, etc.) Como é que cristãos apoiam-se na Lei de Moisés para defenderem a pena de morte? Será que estes mesmos cristãos estão dispostos a cumprir toda a Lei? "Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído." (Gálatas 5:4)

São estas as minhas razões. Não acredito que violência se combata com violência.

"Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem."
(Romanos 12:21)

Este e outros artigos do pr. Alan podem ser lidos em seu blog:
alancapriles.blogspot.com
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