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Entrevista com Alan Capriles


Pastor declara ter sido chamado para a mais dura missão: evangelizar os próprios evangélicos

Por Vagner Rosa
(Território Gonçalense)

Não poderia haver data mais adequada do que hoje – Dia da Reforma Protestante – para o TG publicar a entrevista com Alan Capriles, o pastor que tem como missão despertar os evangélicos gonçalenses para o verdadeiro evangelho de Cristo. Autor do polêmico artigo 'A cidade mais evangélica do mundo... e daí?', em que crítica a qualidade espiritual dos protestantes de São Gonçalo, e que segundo uma pesquisa, é o lugar onde tem mais evangélicos por metro quadrado no mundo, Capriles, no entanto, não se envaidece com esse dado. “Que diferença isso trouxe para essa sociedade? Pelo menos, desde que moro aqui, não vi nenhuma diferença.”, questiona em seu brilhante texto.

Casado com Rosa Lúcia, com quem tem dois filhos (Filippe e Gabriel), esse paulistano, que há 10 anos está a frente do ministério da Igreja Bíblica Cristã, localizada em Laranjal, revela que Deus tem um propósito para ele estar aqui: “O povo dessa cidade necessita urgentemente do evangelho da graça de Deus, a começar pelos próprios evangélicos”.

Pois bem. Vamos então conhecer agora o pensamento desse líder religioso que defende ardorosamente a volta da igreja ao rumo correto...

Território Gonçalense - O senhor nasceu em berço evangélico?

Pastor Alan Capriles - Não. Como grande parte dos brasileiros, meus pais se diziam católicos, mas não eram praticantes. Meu primeiro contato com a igreja evangélica só aconteceu no final da adolescência.

Como aconteceu o chamado de Deus para ser pastor?

Foi realmente um chamado de Deus. Ocorreu aos 18 anos, quando eu era recém convertido e congregava na Igreja de Nova Vida em Botafogo. Sei que é difícil de acreditar, mas minha vocação pastoral foi confirmada pela experiência de ouvir, literalmente, o Senhor me chamar pelo nome. Mas essa é uma longa história...

E o chamado para ser pastor em São Gonçalo? Já conhecia a cidade antes?

Conheci São Gonçalo primeiramente a trabalho, como representante de uma gravadora evangélica. Mas a mudança definitiva veio pouco depois, também como resposta de uma oração. Minha esposa Rosa e eu queríamos fazer mais pelo evangelho e então roguei a Deus que nos enviasse para onde fôssemos mais necessários. O ano era 1998 e morávamos em Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. A resposta veio poucos dias depois, quando um pastor convidou-me para auxiliar seu ministério em São Gonçalo. Como a distância era grande, tivemos de deixar o Rio e passar alguns apertos por amor ao evangelho, como morar numa sala da igreja matriz com nosso pequeno filho até conseguirmos alugar uma casa. A ordenação pastoral ocorreu cerca de dois anos depois.

Depois de 13 anos morando aqui, o senhor já se considera um gonçalense ou ainda se sente um paulistano da gema?

Para ser franco, nunca me considerei um paulistano da gema. Meu pai viajava muito a trabalho e pouco depois do meu nascimento já estávamos de mudança para outra cidade do Brasil. Somente na minha adolescência foi que passamos a morar definitivamente no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Mas, após 13 anos morando aqui, o que posso dizer é que amo o povo dessa cidade. Em geral, são pessoas amistosas, solidárias e interessadas em Deus. Fico feliz por meu filho caçula ter nascido aqui. Mas o que sinto mesmo em relação a São Gonçalo é que estou cumprindo uma missão nesta cidade, ou seja, que Deus tem um propósito para eu estar aqui.

O seu polêmico artigo “A cidade mais evangélica do mundo...e daí?” deixou a comunidade evangélica de São Gonçalo numa situação nada confortável. O senhor revelou que a qualidade espiritual na maioria das igrejas gonçalenses é baixíssima. Como é a sua relação com os líderes religiosos da cidade?

Não foi minha intenção deixar os evangélicos de São Gonçalo em desconforto. Escrevi o referido artigo apenas a fim de despertar os leitores de meu blog para esta realidade. O que eu não imaginava é que ele seria destaque em primeira página de jornal, como aconteceu no Família Cristã, ou que seria reproduzido em outros blogs e sites, muito mais influentes que o meu, como foi o caso do Território Gonçalense. Mas, até o presente momento, tenho mantido uma ótima relação com os líderes evangélicos daqui, até porque eles sabem que tudo quanto está dito naquele artigo é a pura realidade. Grande parte da igreja evangélica, não somente nesta cidade, mas em todo o Brasil, não está cumprindo eficazmente a missão de formar genuínos discípulos de Cristo, razão pela qual não estamos fazendo muita diferença na transformação de nossa sociedade.

Como se chegou a conclusão que São Gonçalo é a cidade mais evangélica do mundo? Existe uma pesquisa que confirme esse dado ou é apenas uma hipótese baseada no número excessivo de igrejas existentes em nosso município?

Teremos a confirmação desses números em fevereiro de 2012, quando o IBGE divulgar os resultados religiosos do Censo 2010. Por enquanto, o que temos são projeções. Por exemplo, baseado no último crescimento registrado do IBGE, entre 1991 e 2000, que foi de 7,82% ao ano em São Gonçalo, em 2011 os evangélicos já seriam a maioria nessa cidade, chegando a 57,74% da população. Agora só precisamos aguardar a confirmação destes números, pois a grande quantidade de igrejas que surgiram por aqui nos últimos anos parece confirmá-los. Estes dados que passei e outros mais estão disponíveis no site de pesquisas da Sepal.

“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”, escreveu o salmista Davi (Salmos 33:12). A julgar pela quantidade de templos cristãos instalados em nossa cidade era para São Gonçalo então ser uma benção, mas segundo o senhor, não é essa a nossa realidade. Como ministro da Palavra de Deus, imagino que deva ser frustrante para o senhor constatar que a observação de Davi não se aplica a nossa realidade, não?

Frustrante, porque confirma o fato de que ser evangélico não significa necessariamente ser um cristão genuíno. Uma coisa é ser discípulo de Cristo, outra, muito diferente, é ser discípulo de cristianismo. O que percebo é que existem muitos discípulos de cristianismo, mas poucos discípulos de Cristo. Não basta apenas dizer que Jesus é o Senhor dessa nação, é preciso submeter-se ao seu senhorio. Mas poucos estão realmente dispostos a isso. Somente quando a maioria dos brasileiros estiver praticando os ensinamentos de Jesus é que nossa nação será realmente feliz.

Em seu texto o senhor afirma que a maioria dos cultos em São Gonçalo é voltado para o homem e não para Deus. E que as igrejas daqui disputam os membros, tal como as lojas disputam a clientela. Mas essa também não tem sido a realidade, quase que geral, da igreja evangélica brasileira?

Sim, é o que me parece. Como escrevi em outro artigo, São Gonçalo serve apenas como exemplo do que mudará em nosso país quando a maioria dos brasileiros for evangélica, ou seja: quase nada. A menos que os evangélicos voltem a pregar o verdadeiro evangelho pregado por Cristo e pelos apóstolos, o qual é muito diferente da pregação materialista e egocêntrica que tem predominado nos púlpitos.

Pastor, diante da crescente secularização, do mercantilismo exacerbado, do aumento da idolatria e do sincretismo de crenças pagãs, fatos esses cada vez mais presentes no meio evangélico, a igreja ainda tem autoridade para criticar o “mundo” e apontar os defeitos dos outros?

Não é nossa missão criticar o mundo e apontar os defeitos dos outros. Fazer isso é um equívoco. A missão da igreja é alertar o mundo de sua iminente condenação ao inferno e apontar Jesus Cristo como único salvador e mediador entre Deus e os homens, a fim de que sejamos salvos e transformados, para vivermos em amor, segundo a sua vontade. Mas, lamentavelmente, grande parte da igreja evangélica está se deixando influenciar pelo que foi mencionado na pergunta, o que a fez desviar-se de seu propósito.

Uma nova tendência evangélica vem sendo observada há algum tempo. Segundo uma pesquisa do IBGE, publicada pela Folha de São Paulo, a proporção de fiéis sem ligação direta com denominações foi de 4% para 14%, de 2003 a 2009. Um salto de 4 milhões de pessoas. Na sua opinião, as igrejas midiáticas são responsáveis por esse comportamento descompromissado de uma parcela dos evangélicos contemporâneos?

Em parte, sim. É o chamado fenômeno dos “desigrejados”. Mas não que os evangélicos estejam trocando suas igrejas pelos pregadores da TV. Na realidade, o aumento do número de crentes desigrejados é conseqüência direta da perda de fidelidade da igreja para com o verdadeiro evangelho. Apesar de não existir igreja perfeita, a igreja evangélica atual tornou-se insuportável para cristãos amadurecidos, que não concordam que o culto seja um show, que o altar seja um palco, que o pastor seja um animador de auditório, ou que o púlpito seja um balcão de negócios. Mas, como a maioria das igrejas que estão na mídia são assim, elas têm sua parcela de culpa nisso; além de ser má influência para outras igrejas, as igrejas midiáticas ainda propagam a ideia de que todas as demais igrejas evangélicas sejam como elas, o que não é verdade. Ou seja: ao invés das pessoas deixarem de ir à igreja para assistir programas evangélicos na TV, esses programas estão afastando da igreja as pessoas que estão em busca de crescimento espiritual, mas que viram suas igrejas se transformarem no modelo de igreja apresentado na mídia. Isso tem ocorrido muito. Tenho contato com vários evangélicos que passaram por isso e agora estão tentando buscar a Deus por conta própria.

Diante dessa complexidade e de outros desafios que a doutrina cristã evangélica vem enfrentando, qual será o futuro da igreja e que papel ela deve exercer hoje na sociedade?

Há um único caminho para que a igreja evangélica se salve: voltar a pregar o genuíno evangelho. A pregação é o leme que conduz a igreja. Se os pregadores voltarem a pregar o que as pessoas precisam ouvir para serem salvas, transformadas, e não o que elas gostariam de ouvir para serem prósperas, teremos uma igreja forte, que causará impacto positivo na sociedade. Do contrário, o futuro da igreja evangélica poderá ser sombrio, com cada vez mais escândalos e fragmentações, até que por fim se extinguirá. Jesus mesmo disse que “um reino dividido contra si mesmo não poderá subsistir”. Mas não creio que tenhamos esse fim. É cada vez maior a reação dentro do próprio meio evangélico e tenho certeza de que esse mover é algo da parte de Deus. E, agindo Deus, quem impedirá?

E no campo político, como deve se posicionar?

Não podemos esquecer que a igreja é formada por pessoas, pessoas que, supostamente, são convertidas a Cristo. Portanto, cada cristão deve se posicionar politicamente segundo os ensinamentos de Jesus Cristo, e não segundo os interesses de qualquer denominação evangélica. Por exemplo, eu não devo votar em alguém apenas porque tal candidato é de minha denominação, mas preciso analisar se ele tem capacidade para resolver as demandas do cargo e se é o melhor para nossa nação. Do contrário, podemos estar elegendo alguém que não fará bem ao próximo, contrariando o que Jesus nos ensinou. Aproveito para esclarecer que a candidatura de pastores ou bispos a qualquer cargo político é um equívoco, pois se trata de uma traição ao seu chamado ministerial. Um pastor que não conseguiu se manter fiel ao chamado de Deus em sua vida jamais se manterá fiel ao povo brasileiro. Mas sou favorável à candidatura de qualquer cristão que não seja pastor.

Recentemente, numa entrevista a revista Época, o polêmico pastor Silas Malafaia disse que todo governante agora terá de dizer em que princípios acredita. O senhor não acha que as questões religiosas estão se tornando intransigentes demais num Estado laico? Que os evangélicos deveriam se preocupar mais em combater a corrupção, exigir mais investimentos nas áreas da saúde, educação, segurança pública, empregos e transportes do que ficar discutindo a observação das doutrinas da igreja?

Com certeza, não somente os evangélicos, mas todo cidadão deve exigir o fim da corrupção e suas conseqüências. Quanto em separar a política das questões religiosas, penso que isso seja difícil por pelo menos dois motivos: primeiro, porque a política é feita por pessoas e para pessoas – e estas, geralmente, têm alguma religião; segundo, porque as questões polêmicas nem sempre são apenas religiosas, mas também de ordem moral, o que vai muito além do âmbito religioso. Neste sentido, não somente os pastores, mas qualquer pessoa influente deveria se sentir no dever de alertar os cidadãos acerca de qualquer candidato que defenda princípios imorais, que ameacem o bem estar de nossa sociedade. No entanto, considero sim um equívoco discutir a observação de doutrinas da igreja na política. Mas, devo enfatizar, questões morais podem ser facilmente confundidas com doutrinas religiosas.

Outro pastor que sempre causa polêmica com seus posicionamentos teológicos e seculares é o Ricardo Gondim. Uma declaração dele defendendo a regulamentação de uniões homoafetivas no Brasil causou muito bochicho no meio evangélico. Numa entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, o assembleiano explicou o seu pensamento: “Não é uma questão de pensamento. É uma questão de lógica e eu repito o que disse. Em um estado laico, a lei não pode marginalizar ou distinguir homens ou mulheres que declarem homoafetivos. Há que se entender que num estado laico não podemos confundir teologia, convicções pessoais, com ordenamento de leis de um país. Não podemos impor preceitos religiosos para toda a sociedade civil. Se os preceitos são meus, você tem o direito de não adotá-los. Foi assim que me posicionei sobre essa questão do STF, que a meu ver, agiu corretamente garantindo o direito de um segmento de nossa sociedade”, disse. O senhor concorda com a visão de Gondim ou acha também que ele se tornou um herege, como alguns pastores o classificam?

Não considero o Ricardo Gondim um herege. Para ser um herege ele precisaria ter negado a Jesus como único Senhor e Salvador, o que não foi o caso. Mas, por outro lado, não concordo com essa visão de Gondim. O fato de o estado ser laico não significa que tenhamos que concordar com todas as suas decisões. E, particularmente, não concordo com a regulamentação de uniões homoafetivas. Primeiro, porque se trata de uma questão moral, que ultrapassa o âmbito religioso. Não é somente um preceito desta ou daquela religião, como afirmou Gondim, de maneira que ninguém precisa ser evangélico, ou católico, para discordar da prática homossexual. No entanto, qualquer tipo de ofensa ou violência contra homossexuais é totalmente inaceitável. As pessoas são livres para viver do jeito que bem entenderem, assim como somos livres para discordar de qualquer decisão imposta pelo governo.

Outro assunto controverso é a questão do aborto. As feministas afirmam que nenhuma mulher defende o aborto como método contraceptivo, pois considera também essa uma forma violenta, mas, sim, uma legalização da prática como um trabalho de sustentação aos direitos reprodutivos e sexuais da mulher. Qual é a posição do senhor sobre a descriminalização do aborto?

O aborto é outra questão que ultrapassa o âmbito religioso. A ciência e a consciência já são suficientes para definir minha posição. Se, por um lado, a ciência nos mostra que o feto não é extensão do corpo da mulher, mas que já é um ser humano, que reside temporariamente no útero de sua mãe; por outro, nossa própria consciência atesta que tirar a vida de um ser humano inocente é um crime. Ora, o feto é um ser humano inocente. Portanto, independente de questões religiosas, sou contra a descriminalização do aborto.

Voltando a entrevista da Época, o Malafaia também observou que o governante terá que botar a cara “porque a comunidade evangélica está bem esperta, madura. Não vai dar para ficar em cima do muro”. O senhor acha que a comunidade evangélica está mesmo madura politicamente? Pois o que se observa por aí é que tem muita gente ainda seguindo a opinião de seus líderes sem nenhum senso crítico...

Não creio que a comunidade evangélica esteja madura politicamente. Mas a falta de senso crítico não é um problema existente apenas no meio evangélico. Grande parte do povo brasileiro ainda não aprendeu a votar. Portanto, esse é um problema generalizado, que ocorre tanto dentro quanto fora da igreja.

Já presenciei alguns pastores utilizando-se de textos bíblicos para influenciar os fiéis a favor de seus candidatos (acordos políticos). As passagens mais usadas são: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si a mesma condenação.” (Romanos 13:1,2) e “Adverte-lhes que estejam sujeitos aos governadores e autoridades, que sejam obedientes, e estejam preparados para toda boa obra, que ninguém infamem, nem sejam contenciosos, mas moderados, mostrando toda a mansidão para com todos os homens.” (Tito 3:1,2). Como vê essas manipulações políticas com a Palavra de Deus e como trata as questões políticas com os membros de sua igreja?

Usar a Palavra de Deus para fazer chantagem política é algo abominável. Em nossa igreja procuro deixar claro que cada um deve votar conscientemente, analisando o histórico de cada candidato, bem como sua capacidade para exercer o cargo a que se propõe. Jamais coagimos ninguém a votar em qualquer candidato, assim como não permitimos que se faça do altar um palanque político. Quanto aos versículos citados, eles não têm qualquer ligação com eleições políticas, mas tratam de obediência a autoridades que existem para manter a ordem pública. Mas, lamentavelmente, alguns impostores, que se dizem pastores, retiram textos de seus contextos, a fim de manipular a decisão dos membros de sua igreja.

E quanto a questão da intolerância religiosa, como trata esse assunto? O que achou da polêmica envolvendo a demolição do imóvel que sediou o primeiro centro de umbanda do país, localizado aqui em São Gonçalo?

A intolerância religiosa é totalmente improdutiva. Ninguém se converte a Cristo porque foi maltratado por um cristão. Como eu disse antes, uma coisa é ser discípulo de cristianismo, outra, muito diferente, é ser discípulo de Cristo. Discípulos de cristianismo se esforçam por defender as doutrinas de sua denominação cristã, até mesmo com ofensas e injúrias contra seus próprios irmãos. Discípulos de Cristo preferem se esforçar na prática daquilo que Jesus ensinou, sobretudo em amar ao próximo como ele nos amou, tratando seu semelhante da mesma forma como gostariam de ser tratados. Quanto à demolição daquele imóvel, penso que os evangélicos não devem se envolver nesta questão, pois derrubar tijolos não fará ninguém deixar a umbanda.

Falando agora de uma outra polêmica: é sabido que os blogs apologéticos vêm incomodando muita gente no meio evangélico. Há pouco tempo, o pastor Silas Malafaia (ele de novo. rs) chamou todos os blogueiros que o criticam de filhos do diabo. Preocupado com os prejuízos financeiros, as ofertas começaram a minguar pela TV, decidiu então lançar o portal Verdade Gospel, como forma de se defender dos ataques dos irmãozinhos questionadores. O senhor, que também tem um blog, como tem visto essa influência dos blogueiros que defendem a verdade da doutrina cristã? O retorno tem sido positivo? Esses blogs podem contribuir para uma nova reforma da igreja?

A igreja não necessita de uma nova reforma, mas de um simples retorno ao evangelho. E, sem dúvida, alguns blogs têm contribuído muito para esse caminho de volta. No entanto, tenho duas coisas a lamentar nesse processo. Primeiro, lamento que alguns blogueiros de linha reformada estejam se aproveitando de nossas falhas para buscar um retorno ao calvinismo, e não simplesmente ao evangelho. A solução para os problemas da igreja evangélica não é Calvino, mas Jesus Cristo. E, segundo, lamento mais ainda os ataques verbais utilizados por certos blogueiros, que se dizem cristãos, mas que contrariam os ensinamentos de Cristo ao valer-se de xingamentos e difamações. Porém, nada disso justifica chamar esses blogueiros de “filhos do diabo”. Jesus nos ensinou a orar pelos que nos perseguem e não a condená-los ao inferno.

Há também um movimento pela ética evangélica, que vem promovendo protestos em eventos gospel (principalmente nas marchas para Jesus) e também em frente aos templos suntuosos com faixas que dizem que “O show tem que parar!”. Qual é a sua opinião sobre esse movimento? Apoia o discurso deles?

Apoio totalmente. Este é um movimento pacífico, que busca despertar os evangélicos para o verdadeiro evangelho. Até já lhes enviei um e-mail, pedindo que me comuniquem quando houver algum protesto em São Gonçalo, pois também quero vestir essa camisa. Jesus deixou bem claro que “a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”, mas esse tipo de mensagem é omitida por muitos pastores, uma vez que contraria a teologia da prosperidade adotada por eles. Isso já foi longe demais. Com certeza, esse $how tem que parar!

A sua denominação chama-se Igreja Bíblica Cristã. Com esse sugestivo nome, imagino que a congregação deva dar bastante atenção ao estudo da Bíblia, não? Fale um pouco do ministério de sua igreja.

Devo confessar que nem sempre fui cuidadoso em conduzir nossa igreja segundo a palavra de Deus. Apesar do sugestivo nome, cometi quase todos os erros que hoje aponto existir na igreja. Somente de três anos pra cá fui despertado para o fato de que o modelo de igreja vigente não é bíblico e nem cristão. Desde então tenho procurado transmitir essa verdade a todos que pastoreio, buscando retornar à pureza e simplicidade devidas a Cristo. Não é tarefa fácil, pois hoje muitas pessoas procuram a igreja em busca do “ter” e não mais do “ser”. Mas a obra de Deus não se trata de fazer campanhas, eventos e atividades de entretenimento, mas de se praticar no dia a dia tudo quanto Jesus nos ensinou. A obra de Deus se trata de sermos novas criaturas, que vivam para Sua glória. Sendo assim, nosso ministério se concentra em formar verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam reconhecidos por uma fé atuante, a qual se traduz na prática do amor ao próximo. Mas não basta somente o ensino bíblico. É fundamental a prática da oração e o exemplo pastoral, que fala mais alto que qualquer pregação.

Em seu elogiado artigo, o senhor comenta que quem prega um evangelho puro e simples nessa cidade, só pode estar mesmo em missão e que a mais dura de todas as missões é evangelizar os próprios evangélicos. Por que é difícil evangelizar os evangélicos? Não deveria ser mais fácil, afinal de contas, eles já conhecem a Bíblia?

Os evangélicos que precisam ser evangelizados são aqueles que procuraram a igreja pelos motivos errados. Percebo que estes, atualmente, são a maioria. Se perguntarmos a alguém porque ele foi ao culto, geralmente sua resposta será: “fui buscar minha bênção.” Desta forma, as pessoas buscam a Jesus como a solução para seus problemas e não como a salvação de seus pecados. O culto, na maioria das igrejas, é voltado para os interesses do homem e não para se conhecer a vontade de Deus, que é nos transformar em seus verdadeiros filhos, à semelhança de Jesus Cristo. Trabalhar essa mudança de foco é muito difícil, especialmente quando se trata de evangélicos que passaram a vida inteira ouvindo pregações que enfatizam Jesus como solução para todos os seus problemas. Esse tipo de propaganda consegue resultados numéricos, pois o povo gosta de ouvi-la, mas não é a verdade bíblica. Uma coisa é andar com a Bíblia na mão, outra muito diferente é conhecer seus escritos, principalmente os escritos do Novo Testamento. Por isso a maioria dos evangélicos está sendo enganada, por não conhecer a Bíblia o quanto deveria, a começar pelo evangelho de Cristo. Mas estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, a igreja despertará para o verdadeiro evangelho. E sei que contribuir para que isto aconteça é parte da minha missão nesta cidade.

Hoje está fazendo 494 anos que o padre Martinho Lutero afixou, na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, as suas 95 teses questionando as práticas inadequadas da Igreja Católica, nas quais resultaram na Reforma Protestante. Analisando o cenário atual da igreja evangélica, certos aspectos não lembram a realidade católica que Lutero condenou na época, como a venda de bençãos (indulgências) e a secularização (paganismo), por exemplo?

Lamento dizer que sim. A igreja evangélica distanciou-se muito dos princípios da reforma e, por conta disso, enfrenta uma séria crise de identidade. O pior é que muitos ainda não se deram conta disso. Aliás, muitos pastores nem sequer conhecem aqueles que foram os cinco pilares da reforma: somente a Bíblia, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, e somente a Deus seja a glória. O simples retorno a estes princípios bastariam para trazer a igreja de volta ao rumo correto. Escrevi a respeito disso em meu blog, no artigo intitulado “Não precisamos de uma nova reforma, precisamos de um simples retorno”.

Por que a data que homenageia a Reforma Protestante (31 de outubro) não é celebrada festivamente pelas igrejas evangélicas brasileiras? Não seria uma oportunidade excelente para promover a reflexão sobre a fé pura e genuína em Jesus Cristo, proposta essa defendida enfaticamente por Lutero?

Na verdade, a fé pura e genuína em Jesus Cristo deveria ser pregada e ensinada sempre, não apenas em 31 de Outubro. Se grande parte das igrejas não está fazendo isso no decorrer do ano, como refletir numa data que traria constrangimento e vergonha? Essa é a razão pela qual a maioria das igrejas não pode celebrar festivamente tal data.

Pastor Alan, muito obrigado pela sua entrevista! Que o senhor seja vitorioso em seu trabalho evangelístico e que a nossa cidade possa ser verdadeiramente abençoada!

Eu é que agradeço pela oportunidade. E peço a Deus que abençoe cada dia mais sua vida e o Território Gonçalense, a fim de que este site continue sendo um canal de bênção para o povo de nossa cidade. E a Deus seja a glória!

Data: 31/10/2011

Fonte: Território Gonçalense

Entrevista com Ariovaldo Ramos


Grande parte dos líderes evangélicos está sendo convencido de que é dono da igreja. O dono da igreja é Jesus Cristo.

Extraído da revista Comunhão nº 117

Um homem culto, versado em todos os assuntos, filósofo, líder pastoral com uma visão ampla do ser humano, missionário da Sepal (Servindo a Pastores e Líderes), além de escritor de livros, artigos e presidente da ONG Visão Mundial. Ariovaldo Ramos é uma pessoa com a qual a conversa rende ricas e pertinentes reflexões cristãs. Um homem a quem a atuação por todo o país e em suas incursões missionárias pelo mundo rendeu respeito e reconhecimento. Comunhão conversa com Ariovaldo Ramos sobre missões e o panorama da fé no mundo atual.

Por que a grande dificuldade para fazer missões, inclusive dentro das nossas próprias cidades?

A missão tem que ser feita em todo o mundo ao mesmo tempo. Hoje a evangelização é basicamente urbana porque o mundo é 70% urbano. Portanto, toda evangelização cultural ou transcultural é uma evangelização urbana, e por isso, no Brasil, a igreja evangélica cresce nas cidades com tanta força. Ela teve muita dificuldade em crescer enquanto o Brasil foi rural, porque o mundo rural é muito conservador, diferente do mundo urbano, que faz o ser humano abandonar suas raízes, repensar o significado da existência.

No Brasil e na China a igreja evangélica cresce com uma força digna de nota. Já nos países europeus o caminho é inverso. Qual a sua opinião sobre isso?

Os antigos países protestantes estão tendo uma crise de fé. A igreja protestante é a igreja que fomentou o crescimento econômico, a secularização e o Estado do bem comum. Então, a fé protestante no Velho Mundo, nos EUA e Canadá, está pagando o preço de ter construído um mundo confortável e reduzido o céu a um lugar confortável. Houve, na minha opinião, uma 'teologia do primeiro mundo', uma busca por um estado social de conforto quase como um paradigma celestial, e eles perderam aquele senso de incômodo com o mundo, aquele senso de quem deseja a volta de Cristo, um novo céu e uma nova terra. Eles alcançaram um estado de conforto e isso acabou por arrefecer a sua esperança, a sua fé. A igreja tem conseguido superar todo tipo de perseguição física, por mais violenta. A única perseguição que a igreja não tem conseguido vencer é a riqueza, porque isso a está corrompendo. Foi o que aconteceu na Europa, está acontecendo nos Estados Unidos e agora também no Brasil. Avidez pelo dinheiro, pelo conforto, pelo lucro, pelos bens materiais, é isso que tem destruído a igreja.

De que forma o pastor pode evitar que seu rebanho caia nessa armadilha da riqueza?

Bem, o pastor vai conduzir a sua comunidade de modo a não se abalar com esse tipo de escândalo dependendo do tipo de vida que ele tem. Se ele tem uma vida de ostentação, ele será comparado a qualquer escândalo que vier. Se ele tiver a vida que Cristo recomenda, a própria igreja vai diferenciar, o povo vai dizer: nossos líderes não são assim. Esse problema é geralmente da liderança. A liderança é que tem que se responsabilizar sobre o que prega e, principalmente, sobre o que vive. A gente percebe que há na igreja brasileira cada dia mais uma busca por conforto, por bens materiais, por ostentação. Isso vai corromper a igreja, porque não é possível amar ao mundo e a Deus ao mesmo tempo.

É errado querer ter bens materiais? Como cristãos, o que devemos ter em mente?

Não é pecado querer ter uma vida de dignidade, mas é preciso que a gente entenda que isso é diferente de possuir com ostentação. Você pode ter um bom carro, mas não um carro que custe um condomínio inteiro. Você pode e deve morar numa boa casa, sabendo que é importante que existam boas casas para todos. A luta é pela justiça e pela eqüidade. Tudo que nós, cristãos, recebemos, é para abençoar a coletividade, porque nossa oração é 'Pai nosso', e não 'Meu Pai'.

Em que parte da Bíblia o senhor gosta de embasar suas pesquisas?

Basicamente, no Novo Testamento. É claro que como qualquer pastor utilizo e prego o Novo e o Velho testamento, porém minhas teses na área de eclesiologia, na área de liderança e missão integral, são basicamente a partir do Novo Testamento. Eu uso o Antigo Testamento mais em minhas teses sobre teologia urbana.

Por quê?

Por que o Antigo Testamento é mais urbano do que a gente imagina. Fala das primeiras cidades e as classifica como antagônicas a Deus, e semeia ali um princípio, que eu não sou o único que usa, de que as cidades nasceram numa posição, digamos, contra a vontade de Deus, na maioria dos casos.

Como, contra a vontade de Deus?

Bom, tem o caso de Caim, por exemplo. O Senhor o sentenciou a ser errante e ele construiu uma cidade. Deus o colocou sob a própria proteção, deixando nele uma marca que impediria que fizessem justiça com as próprias mãos, mas Caim preferiu construir uma cidade onde ele mesmo cuidaria da sua segurança. O Senhor o colocou numa posição contrária ao plantio, porque a terra seria inóspita para com ele. Caim estabeleceu um princípio urbano que se opõe e se impõe ao mundo rural.
Durante todo o Antigo Testamento os embates de Deus são com cidades. Mesmo a cidade eleita de Jerusalém, Deus em Jesus fez um lamento: 'Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!' (Mt 23.37)
Entretanto, o Novo Testamento termina com uma colocação muito interessante, em que a cidade que desce dos céus é uma cidade que abriga um jardim. Deus começou com um jardim e terminou numa cidade que tem um jardim como centro. A humanidade fugiu do jardim e termina numa cidade que vive em torno de um jardim. Parece que há uma espécie de encontro entre os homens de Deus no final da história, onde Ele vem com seu jardim e o homem e se submete ao jardim da sua cidade.

O que fazer para que as pessoas compreendam esse retorno para o Jardim; como efetivar esse retorno?

Bom, cada um de nós tem que começar a viver a vida à luz do exemplo de Jesus, à luz do símbolo do Jardim. Por que é um jardim, e não uma coleção de vasos? Porque a beleza de um jardim é sinérgica, é maior do que a simples soma dos componentes. É uma beleza solidária, porque é o mesmo espaço de terra e nutrientes para todo o mundo. Uma beleza sacrificial, porque os membros do jardim com maior frondosidade vão ser submetidos à poda para que todos tenham direito à água e ao sol. A beleza do jardim é unitária, porque se um membro do jardim murcha, o jardim todo murchou.

O que, então, falta para as igrejas brasileiras? Por que, ao mesmo tempo em que crescem, perdem tantos membros?

A primeira coisa que falta são mestres. A outra é pastor. Quero dizer, o cristão não é cuidado como deveria, não é ajudado a viver e a entender Jesus Cristo. E aí ocorrem enganos, como a teoria da prosperidade, porque também foram enganados. A teoria da prosperidade anuncia inverdades. Não adianta ficar determinando para Deus, porque Deus só faz a vontade d´Ele, porque o melhor que Deus pode fazer pela humanidade é fazer a vontade d´Ele. Ela dá equilíbrio, dá saúde e vida com abundância. As pessoas ficam decepcionadas porque foram iludidas com uma mensagem que não é a mensagem do Evangelho.

E a outra causa?

É o desvario dos líderes. Grande parte dos líderes evangélicos, não a maioria, graças a Deus, mas um bom número está sendo convencido de que é dono da igreja. O dono da igreja é Jesus Cristo. Ele comprou a igreja com sangue. Os cristãos não têm que olhar para nós como os líderes que eles têm que seguir; eles têm que ver que estamos seguindo a Jesus Cristo, e virem conosco segui-lo. Os ministérios deixaram de ter o nome de Cristo para ter os nomes dos ministros. Gente assim perdeu o senso do limite, da decência, e o senso do amor de Deus. Aí o povo vai percebendo que em vez de estar servindo a Cristo, está servindo a um desvairado que quer ficar rico, ser tratado como rei. E geralmente essa gente começa a pecar e o povo começa a ver. Mais cedo ou mais tarde, os que perceberam o pecado vão embora.

O senhor vê a igreja voltando para buscar as ovelhas que se afastaram?

Não. Alguns dos novos mentores da igreja chegam a dizer para não perder tempo com os que foram embora. Assim, se você está na minha igreja, mas não tem a minha visão, o melhor que você faz é ir embora. Porque eles transformaram a igreja na causa própria. É uma visão particular, eles têm uma metodologia, e querem impor essa metodologia, porque querem fazer a igreja crescer. Só celebram os que chegaram e usam os que ficaram. Isso é muito cruel e um profundo equívoco, porque o papel dos presbíteros é apascentar o povo, como o apóstolo Pedro nos ensinou. Eu imagino que se houvesse um Juízo especial para pastores e líderes, o que o Pai ia nos perguntar é: onde é que estão as pessoas que Eu dei para você cuidar? Ele não ia perguntar o quanto a igreja cresceu, quantos templos construímos, quantas obras fizemos. Deus morreu em Cristo Jesus e Cristo Jesus morreu por pessoas. Não morreu por visões, nem por sonhos, planos, metas, nem por instituições, fossem elas quais fossem.

Como é que o senhor acha que isso vai acabar?

Ou num avivamento, ou num juízo. Espero que seja num avivamento. Se for num avivamento, o Senhor vai nos levar se nos arrependermos. Nós vamos pedir perdão, a igreja vai zerar e a gente continua tudo de novo, porque houve um avivamento. Agora, se for num juízo, é melhor nem falar sobre isso.

Data: 06/07/2012

Fonte: http://www.comunhao.com.br/index.php?option=com_k2&view=item&id=4324:entrevista-ariovaldo-ramos&Itemid=106

Entrevista com Caio Fábio


“Eu só quero viver em paz”. Pastor diz não rejeitar seu passado e que quer ser livre do sistema religioso

Por Danilo Fernandes

Depois de vários anos sumido do noticiário nacional, o pastor Caio Fábio D’Araújo Filho voltou às manchetes no fim do ano passado. Réu na ação movida contra ele por conta do episódio conhecido como Dossiê Caimã – conjunto de documentos falsos que, pouco antes da eleição presidencial de 1998, acusava altas figuras do governo de ter contas secretas naquele paraíso fiscal –, Caio foi condenado por uma juíza federal a pouco mais de três anos de reclusão. Cabe recurso, e o pastor já avisou que vai até às últimas instâncias. “A juíza quer aparecer”, ataca, sustentando a mesma versão que conta desde o início do imbróglio: a de que foi envolvido inocentemente numa conspiração política. Essa parte de seu passado, bem como muitas outras, já não são conhecidas pelas novas gerações de crentes. Contudo, os evangélicos mais maduros sabem que Caio foi a mais destacada liderança evangélica já surgida no país, cuja visibilidade, catapultada por uma ação ministerial intensa – como a criação da organização Visão Nacional de Evangelização, a Vinde, e da Fábrica de Esperança, megaprojeto social que atendeu centenas de milhares de carentes num conjunto de favelas do Rio –, marcou época entre os anos 1970 e 90.

Hoje, Caio olha para esse passado com serenidade. Ele diz que não repudia nada do que fez, mas que não quer mais saber de ser a figura pública, aclamada e requisitada de outrora. “Esse tempo acabou definitivamente para mim. Minha alma não tolera mais a possibilidade dessa vida itinerante”, diz, em sua casa em Brasília. Cercado de árvores, jardins e recantos, é dali que ele grava os programas que exibe pela internet, parte importante das atividades do Caminho da Graça, ministério que hoje capitaneia. Tida como uma igreja de perfil alternativo, o grupo reúne-se em várias cidades brasileiras e, segundo Caio Fábio, procura restaurar o sentido da comunhão cristã. “Ele é um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo. Queremos que invada a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer”, diz, com a retórica privilegiada que conquistou milhões de admiradores e fez sucesso em mais de 100 livros publicados. De certas experiências do passado, ele não esconde a dor – como a separação de sua primeira mulher, Alda Fernandes, com quem teve quatro filhos, e a trágica morte de Lukkas, o terceiro deles. Contudo, embora muito criticado e contestado ao longo desses anos todos, ele assegura, “diante de Deus”, que não sente mágoa de ninguém. Aos 57 anos de idade, casado com Adriana Ribeiro, Caio Fábio D’Araújo Filho se diz em paz. “Eu sou livre. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Hoje, sirvo ao Senhor e não preciso perder o meu ser, a minha saúde, a minha paz, o meu convívio familiar. Isso é graça de Deus para mim!”

CRISTIANISMO HOJE – Recentemente, o senhor voltou ao noticiário com a notícia de sua condenação no processo que investiga o episódio do Dossiê Caimã. Como ficou esse processo?

CAIO FÁBIO D’ARAÚJO FILHO – Meu advogado entrou com recurso e eu ganhei. Agora, deve seguir para outra instância. Esse processo é uma loucura inominável. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que seria o maior prejudicado se a história fosse verdadeira, já veio a público me isentar de qualquer culpa.

Se sua inocência é tão óbvia como diz, por que um assunto praticamente esquecido pela opinião pública foi trazido novamente à tona?

Por iniciativa de uma juíza federal que gosta de aparecer. Como o episódio foi um fato histórico que envolveu até a Presidência da República, ela quis ser a mulher que decretou a prisão do indivíduo que seria o boi de piranha daquele negócio todo. Um grupo de advogados amigos de São Paulo queria até entrar com uma representação contra ela perante os conselhos de Magistratura, porque acharam que ela passou dos limites. Mas o advogado que me representa nos autos não deixou.

A quem interessaria uma condenação sua?

Ah, interessaria a muitos religiosos. O próprio pessoal da imprensa que me ligou disse que isso é uma coisa surreal, que aquela mulher é doida. Ninguém acredita em nada daquilo. Só a Folha de São Paulo é que deu com um destaque maior por uma razão política que eu não vou dizer aqui. E a TV Record [ligada à Igreja Universal do Reino de Deus], por razões óbvias. Estou junto como réu ao lado de Paulo Maluf e Lafayette Coutinho. No entanto, só eu fui condenado! Mas olha, se, por algum motivo totalmente inexplicável, esse negócio chegar ao Superior Tribunal de Justiça, será liquidado lá. E, se por alguma insanidade passar e for ao Supremo, vai morrer na praia.

O senhor trabalha com a hipótese de uma condenação definitiva?

Se, por alguma conjunção cósmica totalmente irracional, eu for mesmo condenado a prestar serviço comunitário ou fazer ação social, eu vou dar um grande “aleluia”, porque estarei sendo condenado a ser eu mesmo, a fazer o que sempre fiz esses anos todos, por minha total iniciativa.

O senhor concebeu e liderou um dos maiores projetos de cunho social de iniciativa de evangélicos já feitos neste país, a Fábrica da Esperança, considerado o maior do gênero na América Latina. Com esta credencial, como o senhor avalia a relativamente pequena atuação da Igreja brasileira na área social, ainda mais evidenciada quando consideramos as altíssimas somas de dinheiro arrecadadas pelos grandes ministérios e denominações?

Não existe nenhum grupo mais ególatra dentre todos os movimentos religiosos planetários do que o movimento evangélico. Isso por causa da semente dele – a semente é má, é de divisão. A semente original, de protesto contra a Igreja Católica, transformou-se numa semente de protesto existencial contra tudo. Essa divisão criou a ênfase no dogma doutrinário. Isso divide, qualquer que seja o desencontro, em qualquer nível na escala de valores. Falta tolerância naquilo que não tem significado para a salvação, no que não altera o DNA do Evangelho. Esse tipo de tolerância no olhar nunca existiu. O que se instituiu foi a prevalência do existencialismo espiritual, e esse não lida com as categorias objetivas de valor. E logo o chamado movimento protestante virou esse guarda-chuva evangélico, sob o qual cabem todas as coisas. Quando é que pode haver unidade e serviço ao próximo se, no meio evangélico a unção para nada serve senão para erigir egos? A unção do Espírito Santo deve redundar no amor, na compaixão, na misericórdia, no serviço – mas a “unção” que vemos aí só tem poder para criar lúciferes com purpurina na cara, que atuam em palcos com luzes.

Em função deste e de vários outros projetos e iniciativas, o senhor levantou muito mais recursos do que o de diversos líderes de hoje, que estão até comprando aviões particulares. À época, o senhor teve o seu?

Nunca tive avião ou helicóptero. Faz parte da minha filosofia não adquirir nada. Nem esta casa onde vivo eu comprei, ela me foi alugada a um valor simbólico por três senhoras amigas. Eu nunca comprei coisa nenhuma, nunca acreditei em compra de nada. O Caminho da Graça nunca vai comprar nada. Creio que imobilizar dinheiro do povo de Deus com patrimônio físico é pecado. Quem diz que a nossa pátria está nos céus e faz aquisições poderosas ou erige templos salomônicos está pecando contra o espírito do Evangelho. Tudo o que eu construí e mantive era alugado. Passei 25 anos declarando que não tinha o menor compromisso com a manutenção de coisa alguma que virasse um fim em si mesmo. Quando você é dono de propriedades, você acaba vivendo para fazer a manutenção de tudo e as coisas perdem a finalidade.

E o senhor vive de quê?

Sempre vivi exclusivamente do ministério. Todos os direitos autorais dos meus livros e a renda obtida com nossas atividades no passado – TV, rádio, revista, editora – era voltada para a atividade missionária, social, evangelizadora e de treinamento. Era tudo reinvestido naquilo que fazíamos. E continua sendo assim hoje.

Quem o ouve falar percebe que o senhor faz questão de traçar uma linha divisória entre o que é hoje e o que fez, em especial em relação ao seu passado institucional, quando era uma figura pública dentro e fora da Igreja. Há algo que o senhor repudia em seu passado?

Não. Eu nunca rechacei meu passado. Só não faria de novo. Naquela época, contudo, foi necessário. Só de uma coisa me arrependo no meu passado institucional: ter aceitado a imposição de ter sido feito presidente da Associação Evangélica Brasileira [AEVB], pela qual eu mesmo trabalhei muito para ver criada. Eu não queria a função, mas fui eleito por aclamação. Praticamente me obrigaram a aceitar, porque a entidade surgiu com o patrocínio da Vinde. Noventa por cento da AEVB estavam ligados aos ministérios que eu dirigia. Eu não queria e nem precisava presidir a AEVB. Pelo contrário – eu é que dei mídia para ela.

Mas a AEVB não cumpriu um papel importante na época? Afinal, ela esteve à frente de movimentos marcantes dos anos 90, como o Celebrando a Deus como Planeta Terra, o Rio Desarme-se e o Reage Rio, entre outras mobilizações que contaram com o apoio dos evangélicos.

Quando se criou a AEVB, a gente já havia perdido tempo demais discutindo o sexo dos anjos. Já estávamos correndo no vácuo do prejuízo. Esperamos muitos anos num processo lento, de muita conversa infrutífera. A AEVB só surgiu em 1991, depois que o [bispo Edir] Macedo já havia começado a dar as cartas do neopentecostalismo brasileiro. A AEVB foi criada com apoio desse pessoal que agora fundou a Aliança Cristã Evangélica Brasileira e de outros, mas ninguém botava dinheiro, ninguém se mobilizava para fazer nada.

O senhor foi convidado a participar da Aliança?

Não fui convidado, e mesmo se fosse, não iria, porque não acredito mais nisso. Todos esses irmãos queridos que estão lá sabem que eu sempre quis ser livre para dizer o que eu queria. Esse tipo de iniciativa tinha que ser criada bem antes, lá no início dos anos 1980, quando havia muita gente séria, respeitável, de corações generosos. Isso tinha de ser criado logo depois do Congresso Brasileiro de Evangelização, em 1983, que para mim foi o maior evento representativo da história da Igreja brasileira. Ali ocorreu a grande oportunidade de unidade. As almas ainda estavam ingênuas, puras, sinceras. A teologia da prosperidade não existia por aqui, o que prevalecia era a teologia da missão integral. Havia uma quantidade enorme de pastores piedosos e desejosos de ver o melhor de Deus acontecer neste país. Creio que, àquela altura, ainda dava tempo de a Igreja ter um papel de relevância e significado, Ainda dava para virar as coisas e não perder os significados do termo evangélico.

A sua separação foi um acontecimento público, que envolveu adultério. Naquela época, isso ganhou enorme peso perante a Igreja. No entanto, já àquele tempo diversas denominações já ordenavam pastores divorciados e encaravam a questão de forma liberal. Também são muitos os exemplos de pastores famosos – alguns, líderes de denominações – que se divorciaram em condições semelhantes às suas, mas a repercussão em nada se aproximou do tratamento que lhe foi concedido. Por que o seu caso, até hoje, suscita tanto escândalo? O senhor se considera perseguido?

Eu daria três razões para este tratamento especial e a grande comoção que o episódio causou. Em primeiro lugar, a minha situação para essa moçada toda foi insuportável. Ministerialmente, eu funcionava como uma espécie de foice, rodando em cima de cabeças conceituais. Toda vez que aparecia um maluco – e eu nunca precisei nominar os malucos, apenas expunha seus erros e dizia que o Evangelho era de outro jeito –, essa foice cortava logo aquela cabeça, o cara virava herege. Por isso, todo mundo tinha medo de que minha opinião conceitual colocasse alguém em situação difícil. Eu tenho certeza absoluta da quantidade enorme de gente que torcia por uma fragilidade de minha parte justamente por causa desse papel que eu exercia. E esse não foi um papel que eu pleiteasse ou buscasse; ele aconteceu espontaneamente. Foi Deus que fez isso por sua graça, eu só estava pregando o Evangelho, que, aliás, é o que eu sempre fiz.

Então, o senhor acredita que parte desta liderança que ai está não teria o espaço que tem se não fosse a sua saída do cenário? Seu espólio foi negociado?

Com certeza. Não preciso falar nada. Basta ver até 1998 quem era quem e o que aconteceu de 2000 em diante. Quer ver uma coisa? Logo depois do que aconteceu, diante daquela comoção toda sobre o que tinha acontecido comigo, houve uma reunião de 300 pastores em São Paulo especificamente para tratar sobre quem ia ficar com qual parte do meu despojo, para saber quais eram os espaços que eu havia deixado abertos e quem deveria ocupá-los. E foram milhares que também fizeram isso. Não quero nem falar de traição, porque no meu coração já estão todos perdoados, mas se eu abrisse a boca ninguém ficava em pé. Esta foi uma razão. Em que pese o fato de que eu cometi um ato pecaminoso de traição e infidelidade, isso está longe de ser a causa principal da grande comoção. Sabe qual foi a causa? Eu ter tomado a iniciativa de contar tudo, ou seja, por minha vontade expor tudo em verdade, sem que qualquer coisa tivesse sido descoberta por ninguém. E eu que ouvia a confissão de tantos deles e sabia de suas fraquezas, das promiscuidades… E, depois, estes mesmos iam à TV bater em mim confiando na minha integridade, pois sabiam que eu não os exporia.

E a terceira razão foi que, naquele momento, eu aproveitei a oportunidade e pulei fora do barco. Este foi o elemento mais doído de todos. A Igreja Presbiteriana me propôs uma discipina como condição para minha restauração. Eu respondi que não estava pleiteando nada, e que estava me desligando da denominação unilateralmente. Eu não queria mais ser parte daquilo. Escrevi três cartas e eles não aceitaram nenhuma. Pensei: “Meu Deus, isso aí não é a máfia, da qual o camarada só sai morto”! Depois me propuseram dar o tempo que eu julgasse necessário e que, depois, se eu quisesse voltar, seria restaurado e estava tudo certo. Mas eu disse que não queria.

O que passava pela sua cabeça naquele momento. O que o senhor desejava? Para onde queria ir?

Eu queria vir para cá! Queria voltar aos meus 18 anos... Eu nunca quis ser pastor ordenado. Eu sabia quem eu era e que Deus tinha me ungido. Sabia que isso tinha vindo do céu, e que não dependia de ninguém. Foi a Igreja Presbiteriana que disse que não era possível que eu, aos 19 anos, em Manaus, fosse considerado pastor pela cidade inteira, pregasse a Palavra sem ser ordenado pastor e sem aceitar ir para ao seminário.

Então a questão crucial foi a rejeição?

Sim. Eles agiram passionalmente. Era como se dissessem: “Nós amávamos esse cara e ele decidiu não ser mais parte do nosso grupo”. E, conquanto eu estivesse fazendo aquilo sem que, na minha mente, quisesse ofender nenhum daqueles irmãos, o que eu não queria era, depois do acontecido, ter de me curvar a nenhum tipo de restauração humana, mentirosa, hipócrita e plástica que queriam me oferecer. Eu sabia que o único a me restaurar era o Senhor. Eu não aceitaria nada que não viesse daquele que me ungiu e sabendo que entrar naquele esquema era vender a minha alma. Então, eles aproveitaram essa minha atitude para vender ao povão a ideia de que eu estava rebelado contra a comunhão dos santos e o amor dos irmãos.

Ao longo dos anos, foram construídos certos mitos a seu respeito e que o rotulam como extremamente liberal e até antibíblico. Um deles é de que o senhor, devido ao que lhe aconteceu, seria um incentivador de divórcios, em especial de pastores. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Isso é uma suposição absurda. Já haviam acontecido milhares de separações de pastores antes da minha. E muita dessa gente vinha me contar os dramas conjugais e chorar as mazelas comigo. Então, é hipocrisia dizer que o que me aconteceu é que abriu as portas para que outros pastores adulterassem ou largassem da mulher. Essa percepção a meu respeito é suscitada pelo diabo na cabeça de muita gente doida. Eu nunca defendi o divórcio. Defendo que continuem casados aqueles que se amam, mas que todos aqueles que se fazem mal, que se machucam, que se ferem e se odeiam, não deveriam estar casados, pelo bem de suas almas. Sempre aconselhei todo mundo a não adulterar, a não trair a mulher. Quando cheguei aqui em Brasília, no meu primeiro ano o que eu mais fiz foi atender pastores e mulheres de pastores que queriam se divorciar e vinham me pedir aconselhamento. Gente de tudo quanto é igreja – batistas, assembleianos, presbiterianos, pentecostais. Na medida do possível, ajudei esse pessoal todo a não se divorciar. Eu dizia a quem me procurava com casos extraconjugais: “Sai dessa, você vai se estrepar com essa amante”. O que Deus uniu, que o homem não separe; e o que Deus não uniu, que não se ajunte, porque vira uma desgraça. O que me aconteceu foi, isso sim, um ato pecaminoso, de traição e de infidelidade. Um pecado diante de Deus e perante a mãe dos meus filhos. Mas o que me aconteceu não teria derrubado nada que já não estivesse demolido. É ridículo dizer que meu caso serviu de legitimação para os atos de quem quer que seja.

Por falar nisso, como é sua relação com Alda Fernandes, sua ex-mulher?

Ela é minha amiga. Passamos o último Natal juntos. Estamos sempre com nossos filhos e netos.

Quando seu filho Lukkas morreu atropelado, em 2004, houve quem atribuísse a tragédia e um juízo de Deus sobre sua vida. O que o senhor sentiu na época e como lida hoje com as pessoas que o criticam?

Só tive coração para a dor e a saudade pela partida do meu filho. Nada do que soube que disseram teve poder de gerar qualquer coisa ruim em mim. O que senti naquele momento foi paz, e se todos os meus filhos morressem, a minha resposta seria a mesma. E tem mais uma coisa – não existe ninguém, nenhum ser humano, que eu não tenha perdoado. Digo isso diante do Deus vivo e dos principados e potestades malignas. Meu coração nunca dormiu com ira em relação a ninguém, eu não tenho ódio nenhum para contar. Não tenho inimizades contra pessoas. Por outro lado, tenho opiniões a dar sobre ideias e conceitos equivocados de quem quer que seja. Não é por causa do fato de eu não ter inimizade pessoal por um indivíduo que vou deixar que a vandalização do Evangelho aconteça sem que eu me una a Paulo na luta comum da defesa do Evangelho, como todo aquele que carrega o temor de Jesus no coração.

Esse seu discurso costuma ser extremamente crítico em relação ao que chama de “igrejas institucionalizadas” e “sistema religioso”. Na sua opinião, as igrejas não têm nada de bom?

Mas é claro que têm coisas boas! Elas têm gente boa, e gente é o que existe de melhor em qualquer lugar. Ministério, para mim, é gente, só é bom se for feito por gente e para gente. Está cheio de gente boa de Deus nas igrejas. Mesmo quando há um pastor paspalhão lá na frente, os bancos estão repletos de gente boa, que sente até pena daquele indivíduo lá na frente, que faz negócios para todos os lados e com quem apareça. Tem gente que suporta o púlpito muito mais para não perder os relacionamentos de comunhão e o convívio de anos com os irmãos. Eles sabem que aqueles caras lá na frente vão passar, as modas vão passar, mas eles vão continuar ali. Existe gente maravilhosa nos ministérios. Veja aquele pessoal da Juvep [Juventude Evangélica da Paraíba, entidade que atua de maneira missionária no sertão nordestino], por exemplo. Eles perseveram há anos na mesma purezinha de alma, na mesma ideia de serviço ao próximo. Há também a Jocum [Jovens com uma Missão, movimento missionário internacional], com seus tantos braços de ação penetrados nos lugares mais distantes, em favelas, em comunidades miseráveis, em bolsões de carência no mundo todo.

O Caminho da Graça é uma espécie de reinvenção da igreja?

Não, ele é simplesmente a sequência de um caminho que eu sempre trilhei. O Caminho da Graça é a expressão de visibilidade de uma coisa subversiva que eu incito. Eu tento fazer com que o Caminho seja apenas, com muita leveza, um elemento de visibilidade mínima da possibilidade de uma comunhão cristã sem que uns mordam e devorem uns aos outros. Por isso, não tenho aquele desejo de fazê-lo crescer, ter expansão numérica simplesmente – quero que o que cresça seja essa coisa que ninguém nomeia, um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo que invade a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer.

O senhor diz que o Caminho da Graça é um movimento não institucionalizado, mas recentemente nomeou presbíteros e diáconos para sua sede em Brasília. Isso não vai acabar tornando o ministério como uma das igrejas que o senhor tanto critica?

Nós funcionamos baseados em dons, e não em hierarquias. Nas igrejas convencionais, o diácono é mais do que o membro e o presbítero é mais do que o diácono. Aqui no Caminho, essas funções expressam simplesmente dons de serviço. O presbítero, o mentor, não é um sujeito mais elevado na hierarquia, não tem poderes ou prerrogativas especiais. Ele é simplesmente o cara que surge pela observação dos outros: “Puxa, quanta sabedoria fulano tem recebido e manifestado”. Essas funções surgem por opiniões múltiplas, não existe reunião de concílio ou votação para escolher ninguém. E tem outra coisa: se, algum dia, lá na frente, o Caminho da Graça deixar de ser o que nasceu para ser, é a coisa mais simples do mundo – acaba tudo e começa outra vez. O problema do pessoal é que eles querem se eternizar. Querem que o grão de trigo dure para sempre, mas se o grão não morrer, não há fruto. Eu não quero perenizar nada. Eu só tenho o compromisso de servir à minha geração, não quero deixar nenhum legado, nenhum império. É preciso reconhecer que a vida é cíclica. Eu já acabei com muita coisa que tinha começado no curso da minha vida. E que ninguém duvide que, se eu tiver vida longa e alguma coisa que estou fazendo hoje se corromper lá na frente, eu mesmo vou lá e termino com tudo, não espero, não.

A manutenção do Caminho da Graça e dos ministérios a ele ligados é feita através de dízimos e ofertas?

A gente recolhe ofertas. A espontaneidade da dádiva tem que ser baseada no amor, na alegria de dar. Quem pode dar mais, dá mais; quem pode dar menos, dá menos; e quem não pode dar nada não dá nada, recebe. Paulo ensinou que é justo que aqueles que recebem bens daqueles que lhes ministram os galardoem e ajudem com bens. Mesmo com toda a capacidade que Jesus tinha de multiplicar pães e peixes e de transformar água em vinho, ele era sustentado pelas ofertas práticas e objetivas das mulheres que o serviam e de outras pessoas. O princípio espiritual da doação era operativo na vida e no ensino de Jesus e no Novo Testamento como um todo.

E quanto ao dízimo? Nesta ótica, ele seria antibíblico?

O que as igrejas ensinam é lei, é obrigatoriedade. A Igreja tornou-se uma espécie de agente substitutivo do antigo templo de Jerusalém, uma espécie de “receita federal” de Deus. É uma coletora de impostos. O dízimo é esse imposto, e ainda dizem que quem não pagar vai sofrer as desgraças descritas no capítulo 3 de Malaquias. Como a Igreja não ensina a obediência ao Evangelho como resultado do amor de Cristo constrangendo nosso coração, como Paulo ensina em II Coríntios 5, as pessoas não veem a questão da doação como algo inerente à generosidade.

Se um homossexual assumido quiser frequentar o Caminho nesta condição, como ele será tratado?

Nunca ninguém chegou no Caminho da Graça dizendo para mim que é gay praticante e que quer ficar ali. Mas não sou persecutório e nem homofóbico acerca de nenhum ser humano. Se ele quiser ficar, ouvirá o Evangelho e saberá que esse Evangelho pode criar um espaço de generosidade misericordiosa para ele ouvir a Palavra de Deus e crescer – mas nunca ouvirá uma única palavra de incentivo a qualquer relação sexual que não seja heterossexual. Se eu fizesse isso, estaria estabelecendo um paradigma que não encontro nenhum precedente para estabelecer.

Logo, ainda que solicitado, o senhor não celebraria um casamento gay?

Eu não faço esse tipo de casamento, até porque a união estável entre homossexuais não é casamento, é uma relação societária, uma empresa limitada. O Estado tem o dever de defender essa relação no que se refere ao respeito à propriedade, aos bens. Se dois gays que construíram uma vida juntos, com aquisição de bens e tudo o mais, resolvem não mais viver em comum, que se divida o que têm, e cada um leva a sua parte. Isso é uma questão de Estado, não tem nada a ver com a Igreja. Mas não estimulo nenhum tipo de união estável, a não ser aquela estabelecida entre homem e mulher que se amem.

Sua maneira de falar e até as roupas que o senhor tem usado provocam muitos comentários. A esta altura da vida, o senhor sente-se livre para dizer e fazer o que quer?

Pelo amor de Deus, você não pode mais ser o que é? Eu me visto desse jeito porque gosto. Eu sou só um carinha que deseja viver. Quem não gosta do meu jeito é livre para viver da maneira que quiser. Eu sou livre como o Evangelho. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Sou como o vento, nascido do Espírito Santo. Quem não suporta minhas declarações, minha sinceridade e a propriedade do que digo que vá dormir com esse barulho.

(Colaborou Carlos Fernandes)

Data: 31/03/2012

Fonte: Cristianismo Hoje

Entrevista com Desmond Tutu


Arcebispo diz que Deus não é monopólio da fé cristã

Não é muito comum um cristão relativizar sua crença a ponto de considerar outras religiões em pé de igualdade com ela. Menos ainda quando esse cristão é um líder respeitado dentro e fora de sua Igreja, e faz do Evangelho de Jesus a bandeira de sua atuação, de esfera mundial. Contudo, o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, aos 80 anos de idade, pode dizer o que pensa sem medo de patrulhamento. É que ele já sofreu ao longo da vida o seu quinhão de questionamentos e restrições e hoje é uma personalidade global situada no mesmo patamar mítico de ilustres pacifistas como o conterrâneo Nelson Mandela, o indiano Mahatma Gandhi ou o tibetano Dalai Lama. A visão lúcida que tem da própria fé é o escopo do livro Deus não é cristão e outras provocações, organizado pelo jornalista – e também sul-africano – John Allen. A obra chegou ao país pela Thomas Nelson Brasil com a presença do próprio arcebispo, por ocasião do 5º Congresso Brasileiro da Indústria da Comunicação, em São Paulo.

O livro reúne diversos mensagens e discursos do religioso, arcebispo jubilado da Cidade do Cabo, o mais alto posto da Igreja Anglicana na África do Sul. Nobel da Paz em 1984, Tutu teve papel de protagonista na luta contra o regime racista do appartheid em seu país, extinto no início da década de 1990 sob a execração mundial. Tolerância, solidariedade, igualdade entre os homens e o amor divino perpassam as páginas, nas quais Tutu se revela extremamente doce e contundente ao mesmo tempo – sem abrir mão da polêmica, inclusive em temas espinhosos para os crentes em geral, como homossexualismo e ecumenismo.

Antes de sua chegada ao Brasil, o arcebispo Desmond Tutu atendeu com exclusividade a reportagem de CRISTIANISMO HOJE através de seus editores no Brasil:

CRISTIANISMO HOJE – O senhor lança Deus não é cristão em um momento de grandes contestações à fé que ainda é majoritária no mundo. Não teme estar relativizando a própria crença e reduzindo-a ao lugar comum que diz que “todos os caminhos levam a Deus”?

DESMOND TUTU – O cristianismo é relativamente novo no cenário do mundo – tem pouco mais de 2 mil anos. Compare-o, por exemplo, ao hinduísmo, ao budismo e ao judaísmo. Quem Deus teria sido antes do advento do cristianismo? E qual teria sido o lugar do judaísmo, uma vez que o cristianismo aceita em grande parte o que está contido na Bíblia hebraica como verdadeiro? Nenhuma religião possui toda verdade sobre Deus. Ele é infinito, e toda religião é, em medida insignificante, uma construção humana, de modo que não devemos nos envergonhar de aprender com outros. Nós seres humanos somos finitos e nenhum de nós conseguirá saber tudo sobre Deus, que é a fonte de toda bondade e de toda sabedoria. Podemos verdadeiramente dizer que somente os cristãos são sábios, inteligentes, santos ou bons? Então, o que falar de Mahatma Gandhi, Dalai Lama, Albert Einstein etc? Ora, Deus nos ama a todos. Cada um de nós é preciso a seus olhos, e cada religião tem percepções valiosas e válidas acerca do mistério de quem Deus é. Os cristãos não possuem o monopólio de nenhuma virtude. Esta é uma das razões pelas quais afirmamos que Deus não é cristão! Todos os seus filhos, sejam eles cristãos ou não, estão qualificados para receberem as muitas virtudes.

O senhor tem sido conhecido como apóstolo da tolerância e da reconciliação. Muitas das causas pelas quais tem se batido, contudo, continuam sem solução. Sente-se frustrado?

É claro que me sinto frustrado. Quando os opressores perceberão que estão sempre ao lado dos perdedores porque este é um universo moral? Por que eles causam tanto sofrimento quando, ao final, serão derrotados? Porém, não é uma frustração que me fará desistir da luta. Rapaz! Eu eu estou do lado vencedor!

A Igreja Anglicana tem sofrido sérios questionamentos ao redor do mundo por conta da ordenação de religiosos homossexuais, que já provocou sérios rachas. Afinal, homossexualidade é pecado? E, neste caso, por que a Igreja tem falhado em encontrar o ponto de equilíbrio entre a denúncia bíblica e o amor e respeito à pessoa do homossexual?

O amor jamais será pecado. Se duas pessoas se amam, isso é algo tremendo – trata-se de uma revelação do amor divino. Há muitas coisas que agora aceitamos e que a Bíblia declara serem erradas. Paulo parece ter aceitado a escravidão e disse que as mulheres não deveriam falar na igreja e que deveriam sempre ter suas cabeças cobertas. E nós o temos rejeitado tais determinações com veemência. A Bíblia registra que Jesus condenou firmemente o divórcio. No entanto, muitas igrejas permitem que seus membros se divorciem e se casem novamente.

Como a Igreja Cristã pode oferecer respostas cristãs convincentes em meio a uma sociedade como a ocidental, cada vez mais relativista e avessa a dogmas?

Eu me entristeço que, diante de tantas coisas erradas em nosso mundo tais como a pobreza, a doença, a fome, a corrupção, os distúrbios e as guerras, nós na Igreja estejamos concentrados na questão da sexualidade humana. O Senhor da Igreja deve estar muito triste. Ele que não veio para julgar e sim para salvar o mundo. Muitas pessoas se importam com as coisas do Espírito. Muitos oram, meditam, tentam ser compassivas e sensíveis; porém, são desencorajadas pela Igreja organizada, que gasta uma energia enorme, na maioria das vezes, com coisas que têm muito pouco a ver com o Reino de Deus. Olhem para as manifestações contra a guerra e a injustiça em muitas partes do mundo. Muitos desses manifestantes se sentem desanimados quando lembram que a Igreja está demasiadamente voltada para si mesma.

Lembrando que foram cristãos brancos que instituíram o appartheid, que ações poderiam ser encetadas para a conscientização efetiva dos cristãos acerca da intolerância?

Um perseguidor muçulmano é tão ruim quanto um perseguidor judeu, cristão ou de qualquer outra religião. Pessoas de todas as crenças são boas ou más. Minha esperança é que os adeptos de todas elas pertençam eles a uma comunidade multirreligiosa ou que os seguidores de uma única fé sejam compelidos por sua crença a se opor ao mal e a encorajar o bem.

A Igreja da África é das que mais crescem no mundo. Já se pode falar numa teologia cristã africana?

Desde que os povos africanos compreenderam que não tinham de ser “circuncidados” e se tornarem como os cristãos ocidentais, e sim, que poderiam e deveriam achegar-se a Deus como são. É por isso que o número de convertidos se multiplicou na África; hoje eles podem dançar sem constrangimento, podem tocar seus tambores. Há uma teologia africana vibrante, assim como na América Latina houve uma teologia da libertação viva e que tem nos influenciado.

O anglicanismo, assim como outras confissões históricas, professam o ecumenismo. No entanto, várias das crenças envolvidas no diálogo ecumênico têm diferenças fundamentais. Como fechar essa conta?

O ecumenismo não é apenas possível. Ele está acontecendo. Há iniciativas ecumênicas expressivas. Na África, temos a Conferência Toda a África de Igrejas, com base em Nairóbi [Quênia]. Cristãos trabalham juntos em prol da educação teológica, opondo-se à injustiça, encorajando a ecologia – e não apenas as denominações cristãs estão cooperando de maneira efetiva.

Data: 02/08/2012

Fonte: Cristianismo Hoje

Entrevista com Ed René Kivitz


"O evangelho dos evangélicos é uma mistura de catolicismo medieval, religiosidade afro e protestantismo fundamentalista."

Entrevista extraída do site Bom Líder

Você tem dito que por trás da expressão “outra espiritualidade” está a sugestão de que existe uma outra maneira de viver a espiritualidade cristã, diferente da maneira como os evangélicos a vivem. Qual seria essa “outra espiritualidade”?

Escrevi um livro para responder esta pergunta. A resposta não é simples. Mas, em síntese, é uma espiritualidade em oposição ao modelo religioso de relações de troca com Deus, ou na verdade deus, pois uma divindade que se pode manipular é na verdade um ídolo. A espiritualidade cristã é uma experiência da graça-gratuidade de Deus, uma relação de amor abnegado, desinteressado, desfocado dos próprios interesses e voltado para servir e abençoar o outro. A espiritualidade egocêntrica, que visa manipular Deus-deus em benefício próprio é pagã, e está na contra-mão da proposta existencial do Evangelho: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com o amor de Cristo.

E como você avalia o evangelho dos evangélicos?

O evangelho dos evangélicos é uma mistura de catolicismo medieval, religiosidade afro e protestantismo fundamentalista. Está baseado em conceito de justiça retributiva, feitiçaria e magia, dogmas e moralismos. Bem distante do caminho de Jesus. Temo que se Jesus vivesse hoje seu ministério terreno, provavelmente trataria o evangelho dos evangélicos com a mesma atitude com que tratou o farisaismo de sua época, ou mesmo de maneira mais contundente em exercer juízo.

A atual espiritualidade desenvolvida em grande parte dos ambientes eclesiásticos no Brasil, seria o produto de uma liderança doente e comprometida com o mercantilismo religioso?

O modelo de liderança proposto por Jesus é a liderança do servo: quem quer ser o primeiro, seja o último; quem quer ser o maior, seja o menor; quem quer autoridade, seja servo. Cada um avalie seus líderes espirituais e compare com o modelo de Jesus para chegar a sua própria conclusão.

Pensando na dinâmica ministerial, como você avalia a relação vocação pastoral x carreira profissional?

Creio que a vocação é algo que faço em resposta a um chamado de Deus, independentemente de um chamado da igreja, e por conseguinte independentemente de remuneração. Carreira profissional é algo que implica vínculo formal com uma organização em cujo ambiente nos dedicamos e por esta razão somos recompensados de diversas maneiras, sendo a principal delas a remuneração financeira. Para exercer a vocação, sendo necessário, trabalho de graça ou até mesmo pago para trabalhar. Na carreira profissional, recebo salário. Paulo, apóstolo tinha uma carreira profissional: era fazedor de tendas; e também uma vocação: apostólica. Quando podia, dedicava-se inteiramente à sua vocação; mas quando necessário, trabalhava em sua carreira profissional para pagar as contas do exercício de sua vocação.

De forma prática, como o leitor pode desfrutar desta “outra espiritualidade”, que você afirma ultrapassar os limites do culto (atividades), templo (lugar), tempo (domingo)?

As expressões 'espiritualidade' e 'forma prática' me soam antagônicas. A espiritualidade é muito mais uma postura de coração e uma atitude na vida do que uma coisa que se faz ou deixa de fazer. Nesse caso, o Evangelho trata de servir em vez de ser servido; amar as pessoas como as pessoas são, em vez de amar as pessoas como gostaríamos que fossem; buscar o reino de Deus e a sua justiça acima de todas as coisas; fazer tudo para a glória de Deus, dentre outras expressões ricas e profundas ensinadas pelo Novo Testamento.

Você acredita que da forma em que a igreja está constituída, é possível ser ao mesmo tempo, pastor e discípulo de Jesus?

Mais uma vez, ser discípulo de Jesus é uma coisa que você é, enquanto ser pastor é uma coisa que você faz. Você pode e deve ser discípulo de Jesus independentemente do que você faz, inclusive se o que você faz é pastorear.

Data: 06/07/2012

Fonte: http://www.bomlider.com.br/entrevistas_ver.php?cod=13

Entrevista com Hernandes Dias Lopes


Pastor afirma que muitas igrejas evangélicas não estão ensinando os princípios cristãos

Por Vilmara Fernandes

O pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, Hernandes Dias Lopes, é taxativo: o protestantismo no Brasil precisa passar por uma nova reforma. Na avaliação dele, as igrejas evangélicas se desviaram da verdade e vêm utilizando as Escrituras Sagradas para interesses e conveniências pessoais.

Entre eles estariam os milagres, as curas, a prosperidade. 'Hoje as pessoas se aproximam de Deus não pelo que Ele é, mas pelo que dá. Desejam o que funciona, o que dá certo, o que permite tirar proveito', pontua Lopes.

Parte dessas igrejas, destaca o pastor, é liderada por pessoas que ficam ricas ao explorarem a inocência dos fiéis. 'A maioria sem nenhum preparo cultural e moral', diz Lopes. E quando a igreja se afasta dos princípios do Cristianismo, observa o líder dos presbiterianos, 'a vida começa a ficar errada: aparecem as dificuldades, os problemas familiares, a depressão, as drogas'. Para ele, o caminho para contornar essa exploração é vencer o analfabetismo bíblico. É conhecer a verdade na fonte, nas Escrituras Sagradas. 'Quando falta o conhecimento, as pessoas caem na rede das maiores loucuras, das maiores heresias, dos enganos mais sutis da religiosidade', lembra Lopes.

Na próxima quinta-feira, o reverendo aumenta a lista de suas publicações - que já chegaram à casa dos 90 - com o lançamento de mais três livros. Um deles é de devocionais, reflexões práticas que ajudam a entender os textos bíblicos. Veja abaixo mais detalhes da entrevista concedida pelo pastor Hernandes durante suas férias nos Estados Unidos.

Na próxima quinta, o senhor lança um livro com reflexões práticas sobre a Bíblia.

São 52 devocionais, um para cada semana do ano. É uma forma de mostrar para o leitor as riquezas, a atualidade e a pertinência que a Bíblia tem para os nossos dias. Neles trato de assuntos variados: família, casamento, criação de filhos, depressão, ansiedade, igreja, sociedade, cultura.

O Brasil é um dos países onde mais se imprime bíblias, mas também é onde ela é menos lida.

É um paradoxo. Uma cultura de analfabetismo bíblico. E com isso muitos se tornam inocentes úteis nas mãos dos espertalhões, dos aproveitadores. A Bíblia diz: 'O meu povo está sendo excluído porque me falta o conhecimento'. Quando falta o conhecimento, as pessoas caem na rede das maiores loucuras, das maiores heresias, dos enganos mais sutis da religiosidade.

Há preconceito?

Há quem pense que se trate somente de um livro religioso e que sua leitura pode deixar a pessoa bitolada, o que é uma tolice. A Bíblia é um livro de cultura geral extraordinário e absolutamente prático. Nenhum livro produziu tanta transformação de vida, de caráter, de família, de pessoas, de sociedade, de cultura. Ninguém pode ser dizer culto sem ler a Bíblia. O triste é que até no meio evangélico há quem a utilize de forma mágica.

Como?

Abre a Bíblia a esmo, põe o dedo em um versículo e diz: 'O que Deus esta falando comigo?' A Bíblia não é um livro mágico, mas lógico, racional. Quem assim age está lendo a Bíblia pelo avesso, de cabeça para baixo, não está entendendo nada.

O senhor também já fez críticas ao meio evangélico por não se saber orar.

Vivemos em uma cultura antropocêntrica ou humanista, onde a própria religiosidade coloca o homem no centro. Hoje as pessoas se aproximam de Deus não pelo que Ele é, mas pelo que dá. Desejam o que funciona, o que dá certo, o que permite tirar proveito. A pregação é a da prosperidade, dos milagres, para o fiel ficar rico. O que leva a uma exploração da fé.

Essa pregação é a marca do neopentecostalismo, responsável pelo surgimento de inúmeras pequenas igrejas evangélicas.

Que pipocam em vários lugares e que são lideradas por pastores que ficam ricos ao explorarem a inocência das pessoas. A maioria deles sem nenhum preparo cultural e moral, o que gera o descrédito na religião, na fé cristã, e com isso não podemos concordar.

Como evangelizar nesse meio?

O que precisamos no Brasil é de uma nova reforma religiosa. A própria igreja evangélica desviou-se da verdade. Uma verdade que está na Bíblia, que precisa ser estudada como ela é, e não como querem que ela seja. O problema é que a estão usando para interesses próprios, para as conveniências pessoais.

Quais?

Prosperidade, sucesso, milagres, curas. Ninguém quer pagar o preço de conhecer a verdade, de viver a ética. Querem algo enlatado, fast food. A igreja evangélica cresce muito, mas em detrimento da ética. A pessoa se diz cristã, mas o seu comportamento não muda, assim como a sua família e a maneira como lida com o dinheiro. Esquecem que o Cristianismo é transformação. Ele muda o caráter, a vida, a família, a sociedade, a política. Quantos políticos no Congresso Nacional se dizem evangélicos e, muitas vezes, estão à frente da corrupção, usando a fé para benefícios pessoais em vez de serem transformados por ela?

A Reforma Protestante veio de um racha com a Igreja Católica por problemas semelhantes.

A Reforma foi uma volta às Escrituras Sagradas, quando Martinho Lutero e os outros reformadores perceberam que a igreja estava seguindo práticas que não tinham amparo nas escrituras. Hoje as próprias igrejas evangélicas têm práticas contrárias à Bíblia, com enganos, mentiras, milagres a granel. Abrem-se igrejas como se abrem franquias de empresas. É completamente contrário ao que a Bíblia ensina.

Essa discussão está ligada à proposta de retorno à chamada igreja primitiva? O que isso significa?

É o retorno à igreja dos apóstolos, fiel à verdade, disposta a morrer pelo Evangelho, que não negociava a verdade, os princípios, que não vendia sua consciência por dinheiro. Nela os cristãos estavam prontos para morrer pelo Cristianismo.

Era também uma igreja marcada pela vivência em comunidade, bem diferente do individualismo presente na atual sociedade.

Como já disse, é um século humanista, com cada um por si e Deus para todos, onde não há princípios do Cristianismo. Quando se abandona a teologia, a ética se perde. Quando a igreja foge da verdade, a vida começa a ficar errada, aparecem as dificuldades.

Quais?

Problemas no casamento, com os filhos, depressão, ansiedade, uso de drogas. No momento em que a sociedade abandona a verdade, perde o rumo na vida moral.

Há algum movimento em prol dessa reforma?

Sim. Não diria que há um movimento articulado, mas as igrejas históricas estão preocupadas com essa situação.

O que o senhor diria para quem busca espiritualidade?

Que não se pode ter uma fé de segunda mão. A grande conquista da Reforma Protestante foi garantir a independência para buscar a Deus, para ler e entender as Escrituras Sagradas. Não é preciso interveniência de ninguém, não é preciso ser dependente de ninguém. A Bíblia diz: 'Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará'. Quem a conhece não se torna presa de lobos, não se torna inocente útil nas mãos dos aproveitadores.



Perfil

Vida. Hernandes Dias Lopes é de Nova Venécia, Norte do Estado. Casado com Udemilta Pimentel Lopes, tem dois filhos: Thiago e Mariana

Cursos. Estudou Teologia no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, São Paulo, e fez doutorado em Ministério no Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississippi, nos Estados Unidos

Igreja. Foi pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Bragança Paulista, em São Paulo, de 1982 a 1984 e, desde 1985, é o pastor titular da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória

Atuação. É conferencista e escritor, com mais de 90 livros publicados. Mantém um programa - Verdade e vida - nas manhãs de sábado, na Rede Vida. É diretor da instituição Luz para os Caminhos, em Campinhas, São Paulo

Contatos. Teólogo respeitado no meio cristão, possuiu um site hernandesdiaslopes.com.br. Nele é possível encontrar seus sermões, livros, pastorais e vídeos sobre sua atuação

Data: 06/02/2011

Fonte:
http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2011/01/748117-ha+uma+exploracao+da+fe.html

Entrevista com John Piper


O autor e teólogo vislumbra a falência do teísmo aberto e destaca a importância da pregação sobre o sacrifício de Cristo.

Por Mauricio Zágari

Adepto de uma teologia ortodoxa, defensor de posições que levam muitos a acusá-lo de fundamentalista e dono de um discurso bastante incisivo, John Stephen Piper é uma figura que se destaca numa época da história do cristianismo em que se tornou charmoso seguir o discurso heterodoxo da Igreja emergente, ostentar a crença no liberalismo teológico, manter um discurso baseado num amor divino água-com-açúcar ou mergulhar de cabeça na teologia da prosperidade. Esse posicionamento levou o pastor da Igreja Batista Bethlehem, em Minneapolis (EUA), a se tornar uma referência para os mais conservadores – e, simultaneamente, uma figura rejeitada pelos mais liberais, que o acusam de “não pregar o Evangelho do amor”.

Piper tem uma história de vida cheia de marcos dolorosos. Filho de um evangelista ausente, que viajava por todo o país plantando igrejas. Perdeu a mãe numa batida de ônibus. E, aos 60 anos, no dia de seu aniversário, recebeu a notícia de que estava com câncer de próstata – do qual se recuperou após uma cirurgia. Com 65 anos de idade, é casado com Noël Piper desde 1968, com quem tem quatro filhos, uma filha e um grupo grande de netos. Formado em Teologia pelo Wheaton College em 1968, tornou-se mestre em divindade pelo Fuller Theological Seminary três anos depois. O doutorado veio em 1974, em Estudos do Novo Testamento, na Universidade de Munique, na Alemanha. Seu ministério pastoral começou em 1980, após o que Piper define como “um chamado irresistível de Deus para pregar”. Por fim, ganhou notoriedade nacional e internacional após a publicação de seu livro Desiring God, originalmente chamado no Brasil de Teologia da alegria e posteriormente rebatizado de Em busca de Deus (Shedd Publicações).

Em 1994, Piper criou o ministério Desiring God, que, nas suas palavras, foi idealizado para “disseminar a paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas para a alegria de todos os povos em Jesus Cristo”. A quem segue essa filosofia, Piper cunhou o termo “hedonista cristão”. Amado ou criticado, o conferencista, poeta e escritor de 37 livros tem sido uma voz que vem ecoando nos quatro cantos do chamado universo evangélico.

John Piper concedeu esta entrevista exclusiva a CRISTIANISMO HOJE, onde fala sobre assuntos que têm movimentado os debates teológicos e pastorais dos nossos dias. Temas com teísmo aberto, heterodoxia da fé e os efeitos da modernidade sobre o cristianismo, entre outros. E preferiu não responder a outras questões, como sua reação polêmica ao suposto universalismo do pastor emergente Rob Bell, considerada por muitos como falta de amor cristão.

CRISTIANISMO HOJE – Depois da tragédia no Japão, em março, o senhor declarou que toda calamidade é um chamado de Deus para que os que permaneceram vivos venham a se arrepender. Essa declaração entra em choque direto com o chamado teísmo aberto, que estabelece uma suposta incapacidade de Deus de interferir nessas situações. Qual é exatamente a sua visão sobre essa corrente teológica?

JOHN PIPER – A menos que eu esteja desinformado, o teísmo aberto não teve muita repercussão nos Estados Unidos. Não vejo essa teologia ganhando terreno. As pessoas mais informadas biblicamente enxergam a negação da preciência de Deus como um conceito espiritualmente e intelectualmente repugnante. Elas sabem intuitivamente que Deus não é Senhor se não pode saber tudo o que virá a acontecer no futuro. O caso exegético que Greg Boyd, Clark Pinnock [principais expoentes dessa corrente teológica nos EUA] e outros tentaram estabelecer não convenceu os leitores mais cuidadosos da Bíblia.

E quanto às implicações pastorais do teísmo aberto?

Essas implicações não são percebidas pela maiora dos cristãos como algo reconfortante – a saber, o fato de que o mal que você vivencia pode ter surpreendido Deus da mesma forma que surpreendeu você. A maior parte dos crentes em Jesus entende que existe uma esperança bíblica muito maior de conseguirmos alcançar paz ao vivenciarmos o problema do mal por meio da sábia soberania de Deus – a posição reformada – ou da concessão do Senhor à autodeterminação humana (posição arminiana). Nenhuma dessas duas visões nega a preciência de Deus do jeito que o teísmo aberto faz.

Presenciei debates entre integrantes da chamada Igreja emergente, em que proponentes da versão brasileira do teísmo aberto – a chamada teologia relacional – foram bem ofensivos ao senhor. Cheguei a ouvir um pastor bastante influente entre jovens chamar o senhor publicamente de “fundamentalista enrustido de neocalvinista”. Como o senhor lida com esse tipo de reação?

Lido com esse tipo de crítica principalmente ao preparar e disponibilizar sermões, livros e artigos sólidos que são basedos o mais explicitamente na Bíblia que sou capaz de fazer. Rótulos desse tipo vão pegar ou não, em longo prazo, em função do que nós dizemos e fazemos e nunca pelo modo como respondemos aos nossos críticos. A pergunta é: ao longo de 30 anos de vida pastoral, de testemunho público e de uma produção literária sólida, a maioria dos cristãos espiritualmente saudáveis é auxiliada ou é ferida pelo que eu faço e digo? Conhecemos a árvore pelos frutos. Eu quero ser bíblico; então, ser “enrustido”, “fundamentalista” ou “calvinista” é bastante secundário. Desejo que, no todo, meu ministério seja definido pelas Escrituras. O Corpo de Cristo fará esse julgamento no curto prazo – e Jesus fará no fim.

O senhor já se manifestou criticamente em relação ao fato de o homem fazer planos – deixando claro que, em sua opinião, Deus não deseja que confiemos em nossos próprios meios. Como fechar a conta de maneira equilibrada, uma vez que a própria Escritura recomenda o planejamento das atividades humanas?

Respondo isso com a Bíblia. “Prepara-se o cavalo para o dia da batalha, mas o Senhor é que dá a vitória” (Provérbios 21.31). “Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos” (Provérbios 16.9). Deus nos deu vontade e raciocínio. Ele deseja que nós os usemos para discernir sua vontade e realizá-la, conforme Romanos 12.2. E Deus é absolutamente soberano sobre os mais ínfimos aspectos de nossas vidas. “A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor”, diz o autor de Provérbios. Assim, Deus deseja que nós decidamos na dependência de sua graça capacitadora, que planejemos na dependência de sua maravilhosa graça e que ajamos na dependência de sua maravilhosa graça.

Qual seria a razão para isso?

A razão para isso é tamanha que, quando decidimos, planejamos e agimos, Deus recebe a glória por todas as coisas boas que advirão: “Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre (I Pedro 4.11).

E de que modo saber que Deus é soberano em todas as nossas ações deve influenciar nossas ações cotidianas?

Essa certeza deveria tornar-nos humildes, ousados e prontos para arriscar tudo pela glória do Senhor. Recentemente o senhor tirou um período sabático de oito meses. Qual foi o seu propósito ao se retirar da igreja por um periodo tão extenso?

Uma situação de estresse e a avaliação de questões espirituais em três áreas de minha vida me conduziram ao ponto de solicitar esse período de afastamento. Eu queria fazer uma análise em aspectos relacionados à minha alma, à minha família e ao meu ministério. E, quando me refiro a essa análise, estou me referindo a um esforço dedicado a discernir as motivações do meu coração, os padrões adotados em minha vida familiar e o ritmo de meu ministério. Às vezes, a melhor maneira de discernir a natureza de suas motivações é parar de fazer o que você está motivado a fazer. E, às vezes, os motivos de estresse podem ser de tal natureza que a melhor maneira de ver se eles são recompensadores – e podem ser – é removê-los. Fico feliz por ter me afastado esses meses.

E quais foram os resultados que esse período sabático lhe proporcionou?

Vou mencionar apenas um resultado: ao participar dos momentos de louvor em uma igreja irmã, confirmei para minha própria alma que amo Jesus em adoração e não apenas me realizo ao ajudar outras pessoas a amá-lo. Além disso, amei ouvir pregações bíblicas, mesmo quando não era eu o pregador. E também amei cantar junto com o povo de Deus, mesmo quando aquelas pessoas não faziam parte do rebanho que eu discipulo na igreja que pastoreio.

Muitos pastores hoje em dia dividem o púlpito das igrejas que lideram com uma série de outras atividades eclesiásticas, além de atuar como escritores e palestrantes – o que é o seu caso. Essa diversidade não prejudica o chamado intrínseco ao pastorado?

Um ministério mais amplo fora da igreja local pode impedir o pastoreio do rebanho. Afinal, se estou palestrando em uma conferência ou me dedicando a escrever um livro, não estou junto às minhas ovelhas nesses momentos. Logo, minha presença pessoal no pastoreio pessoal é menos frequente. É então que surge a pergunta: será que um pastoreio que segue esse modelo deve ser impedido? Não, desde que você tenha parceiros no ministério – vocacionados ou não-vocacionados – que o auxiliam na condução desse trabalho.

Há possibilidade de a Igreja contemporânea resgatar a ortodoxia bíblica? Em sua opinião, quando o pêndulo vai se inclinar na direção da fé impoluta?

Todas as coisas são possíveis para Deus. Nenhum cronograma escatológico bíblico exige que as coisas se tornem piores no período da História do mundo em que estamos vivendo. Historicamente, Deus provocou reviravoltas espirituais, teológicas e sociais em alguns dos piores momentos da caminhada da humanidade. Não tenho nenhuma percepção clara nem discernimento da parte do Senhor para os nossos dias, tanto no que tange a um possível desdepertamento, a uma depuração ou a uma reforma de sua Igreja. Minha tarefa não é saber o que ele vai fazer, mas trabalhar e orar para o que ele pode fazer por meio da fidelidade de seus servos.

No Brasil, a teologia da prosperidade impregnou os setores da Igreja que estão com mais visibilidade na mídia, importada de ensinamentos de Kenneth Hagin e outros. Isso gerou uma enorme reação negativa da sociedade à Igreja e desvirtuou profundamente a mensagem do Evangelho. De que modo os setores mais ortodoxos da Igreja devem reagir a isso?

Parece-me que uma das testemunhas mais claras contra o “evangelho” herético da prosperidade é uma Igreja humilde, pronta a se sacrificar e a sofrer pela causa do verdadeiro Evangelho. E, com essa finalidade, nós precisamos de uma teologia bíblica robusta que fale de sofrimento e da soberania de Deus. Então, creio que os pastores deveriam abordar em suas pregações o tema do sofrimento.

De que modo?

Através de uma abordagem saudável da verdade de que Deus é mais glorificado em nós quando nos contentamos nele. E a grandeza de seu valor brilha mais reluzentemente quando esse contentamento é sustentado por meio do sofrimento e não da prosperidade. Isso redunda em que a glória de Cristo é nosso maior tesouro – e não riqueza, saúde, família ou mesmo a nossa própria vida. Logo, a pregação deve continuamente mostrar não que Jesus é o caminho para a properidade, mas que ele é melhor que prosperidade.

Outro movimento teológico que cresce no Brasil é o dos chamados 'cristãos cansados da igreja': pessoas que foram feridas por pastores, membros, hierarquias, liturgias e instituições e que, por isso, defendem o exercício da fé cristã fora das estruturas eclasiásticas tradicionais. Como devemos responder a esse fenômeno, como indivíduos e como comunidade de fé?

É impossível seguir o Senhor Jesus sem amar o seu povo. A apóstolo João disse que sabemos que já passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos – e que quem não ama, permanece na morte (I João 3.14). O olho não pode dizer para a mão que não precisa dela. Assim, mesmo que uma pessoa abandone uma igreja institucional, o espírito de adoção vai conduzi-la a outros crentes em Jesus. E, mais cedo ou mais tarde, essa comunhão vai desenvolver algo como “estruturas eclesiásticas” institucionais. A Bíblia regulamenta a igreja por meio de presbíteros e diáconos, conforme I Timóteo 3. Algo parecido com isso vai surgir, a menos que a referida comunhão se retire da Palavra de Deus e do amor.

E qual é a atitude cristã correta em relação a esses que se afastaram?

Deveríamos nos arrepender em amor dos pecados que eventualmente tenham afastado essas pessoas e estabelecer reformas que removam todos os tropeços antibíblicos. E, então, deveríamos, com toda humildade, tentar trazê-los de volta.

O tráfego de informações e influências por meio da internet tem feito as paredes denominacionais, doutrinárias e teológicas cairem de modo inédito na história do cristianismo. Isso ocorre pela ação de blogs, redes sociais, sites de transmissão de vídeos e similares, essenciamente. O senhor consegue enxergar, em médio e longo prazos, que efeitos esse fenômeno trará para a Igreja, em especial no processo de formação de conceitos na mente de cada cristão?

Não, não consigo. É muito cedo para dizer que efeitos advirão disso tudo. É fácil se tornar um profeta do apocalipse e predizer os efeitos que a informação e o entretenimento desenfreados terão sobre nós. Certo é que atualmente andamos mais distraídos. Dedicamo-nos muito mais a buscar frivolidades na internet. Também estamos mais facilmente em contato com material que pode nos corromper, como pornografia ou imbecilidades que anestesiam a nossa alma. Porém, nada disso é irreversível. E as possibilidades de colocar à disposição materiais positivos para uma quantidade cada vez maior de pessoas devem superar os problemas. É por isso que devemos orar – e é nesse sentido que devemos trabalhar.

Data: 12/11/2011

Fonte: Cristianismo Hoje

Entrevista com Jung Mo Sung


“Quem tem o poder de definir o que é heresia, se Cristo também foi considerado herético?”

Sung, sul-coreano de nascimento, tem 55 anos, mas está radicado no Brasil desde 1966, tendo se naturalizado no país onde vive com a mulher e os dois filhos. Intelectual cristão com predicados acadêmicos que o projetam internacionalmente – é doutor em Ciências da Religião e pós-doutor em Educação –, ele é um homem cujas opiniões e posturas transcendem a esfera confessional. Teólogo liberal, Sung é autor de 17 livros, palestrante requisitado e especialista em temas econômicos, que aborda sob a ótica da fé cristã. Sim, os dois assuntos têm muito em comum, com ele demonstra em obras como Teologia e economia: Repensando a teologia da libertação e utopias (Fonte Editorial), Deus numa economia sem coração e se Deus existe, por que há pobreza (Paulinas). Para Sung, Cristo veio ao mundo também para trazer boa nova aos pobres – a de que eles podem ter uma vida digna. Por isso, não se conforma com abordagens cristãs que situam as desigualdades sociais como fruto da vontade divina: “É mentira colocar sobre os ombros do Senhor a responsabilidade pela pobreza e pelas injustiças, e não sobre o pecado. Deus nos criou como seres livres, e como tais, somos produtores da pobreza e da injustiça.”

Jung Mo Sung tem bom trânsito em diversos círculos protestantes. É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo, por exemplo. Além disso, tem sido interlocutor frequente de líderes evangélicos, tanto pentecostais como de linha tradicional. Por isso mesmo, tem um conhecimento profundo do segmento evangélico, presente em sua reflexão teológica e, evidentemente, no pensamento crítico a certos valores que andam em alta. “Identificar as bênçãos com a riqueza é critério mundano”, dispara. “É por isso que pastores e bispos se vangloriam da sua riqueza e da posse de bens de luxo, como aviões particulares”.

CRISTIANISMO HOJE – O senhor é conhecido por seus vários trabalhos na área de economia, onde aborda temas como mercado e pobreza sob ótica cristã. Uma pergunta sempre surge quando se trata dessa relação – se Deus existe, por que há miséria e injustiças sociais?

JUNG MO SUNG – O tema da economia tem sido um dos objetos fundamentais da minha reflexão teológica porque Deus é Deus da vida e Cristo veio anunciar a boa nova aos pobres – a boa notícia de que também os pobres têm direito a uma vida digna. E a vida não é possível sem bens materiais, que fazem parte da economia. Jesus veio nos mostrar a verdadeira face de Deus, contra a mentira que coloca sobre os ombros do Senhor a responsabilidade pela pobreza e pelas injustiças, que são frutos do pecado. Deus nos criou como seres livres, e como tais, somos produtores da pobreza e da injustiça.

Um de seus livros é Teologia e economia: Repensando a teologia da libertação e utopias. Passada a divisão ideológica do mundo entre esquerda e direita, qual o legado da teologia da libertação, hoje?

Em primeiro lugar, o que acabou foi a chamada Guerra Fria entre o bloco capitalista e o comunista. Mas as injustiças e graves desigualdades sociais ainda continuam no mundo. Norberto Bobbio, um importante teórico liberal, disse que ainda hoje faz sentido falar em direita e esquerda. Para ele, ser da direita é crer que as diferenças sociais são naturais e promovem progresso econômico – e, portanto, não devem ser combatidas. Ser da esquerda é crer que, mesmo que diferenças sociais não possam ser extintas, é preciso lutar para diminuí-las, pois causam grave injustiça social. Eu concordo e me sinto, como ele, alguém da esquerda, isto é, luto para diminuir desigualdades e injustiças sociais. Penso que a contribuição mais importante da teologia da libertação – não só para a Igreja Católica, mas também para muitos outros grupos religiosos, incluindo as correntes não-cristãs que foram influenciadas por ela –, foi a de mostrar que Deus não é indiferente aos sofrimentos dos pobres e dos injustiçados. A consequência social dessa visão teológica é que o cristianismo ainda tem ou pode ter um papel social importante no mundo.

O que o senhor diria sobre a influência desse movimento sobre os evangélicos?

A teologia da libertação não nasceu católica. Na verdade, entre os primeiros autores latinoamericanos a tratarem da teologia nessa perspectiva estão presentes teólogos protestantes, como Richard Shaull, Miguez Bonino e Rubem Alves. Podemos dizer que a teologia da libertação nasceu ecumênica e influenciou diversos setores das igrejas protestantes evangélicas e da Igreja Católica. Com passar do tempo, ela se tornou mais católica, sem deixar de ter entre o seu meio teólogos protestantes. Mesmo setores que não aderiram àquela teologia foram influenciados na medida em que foram “pressionados” a debater sobre problemas sociais a partir da fé cristã.

A opção preferencial pelos pobres, expressa pela Igreja Católica nos anos 1960, nunca encontrou, ao menos formalmente, eco na Igreja Evangélica. Na sua opinião, o que difere os dois grupos no trato da questão e por que os evangélicos têm certo pudor de assumir essa causa como prioritária na sua prática cristã?

Eu penso que setores evangélicos ainda são muito marcados pela divisão entre a pregação da Palavra e a ação social. Para muitos grupos, a prioridade das Escrituras ficou reduzida ao anúncio sem, podemos dizer, uma ação concreta que desse consistência à afirmação de que Jesus é o Senhor. A teologia da missão integral tentou superar essa dicotomia fazendo uma equação simples – a Palavra de Deus mais a ação social. Enquanto isso, a “opção pelos pobres” feita pelos adeptos da teologia da libertação significa que a forma concreta de anunciar que Jesus é o Senhor em um mundo marcado por tanta injustiça social é optar pelos pobres. Em outras palavras, os senhores do mundo oprimem os pobres e os consideram como sub-humanos; por isso, anunciar o senhorio de Jesus ou de Deus seria afirmar que pobres também são seres amados pelo Senhor, com direito a uma vida digna.

Quais são, em sua opinião, os pontos de afinidade e diálogo entre a teologia da libertação e a teologia da missão integral?

O ponto de afinidade mais importante, na minha opinião, é a convicção, expressa por ambas as teologias, de que Deus não é indiferente às injustiças e aos sofrimentos dos pobres no mundo. Portanto, se Deus não é indiferente, ser indiferente ou insensível aos sofrimentos das pessoas pobres ou vulneráveis não é atitude compatível com o cristianismo. Por isso, as duas teologias levam a sério o chamado de Jesus à conversão, a sair do mundo do pecado, da injustiça e da mentira em direção ao Reino de Deus. Outra afinidade importante se dá em torno da teologia da encarnação. Deus se esvaziou do seu poder divino e se encarnou no meio da humanidade para que também nós vivêssemos a nossa missão no meio do mundo, sem a pretensão de um poder sobrenatural para resolver os problemas. Essa é a convicção de que não se pode viver a fé cristã sem se encarnar no mundo, na luta contra as injustiças e mentiras que matam! Em torno desses dois pontos teológicos em comum é possível desenvolver diálogos importantes entre a teologia da libertação e a teologia da missão integral.

A teologia da missão integral, tão valorizada em segmentos protestantes históricos e denominações tradicionais, sequer é mencionada no ambiente neopentecostal, onde a ênfase é mais no assistencialismo de ocasião. Caso essa escola de pensamento missional fosse majoritária na Igreja Evangélica como um todo, haveria espaço para o neopentecostalismo e para sua ação nas classes mais pobres?

As igrejas neopentecostais partem de uma opção distinta em relação à teologia da missão integral. Enquanto que ela e a teologia da libertação criticam o mundo atual pelas suas injustiças, os principais expoentes do neopentecostalismo e da teologia da prosperidade não o fazem. Na verdade, eles aceitam os valores e a hierarquia social do mundo e propõem levar os cristãos ao topo dessa hierarquia. Por isso, as bênçãos são identificadas com a riqueza, que é critério essencial do mundo; e pastores e bispos se vangloriam da sua riqueza da posse de bens de luxo, como aviões particulares. Mesmo que a missão integral fosse majoritária nos segmentos históricos e tradicionais do protestantismo, o neopentecostalismo e teologia da prosperidade teria seu espaço. Afinal, muitos querem subir a hierarquia social, não necessariamente encontrar Deus que se manifestou em Jesus.

O senhor concorda com a afirmação que diz que “a Igreja Católica optou pelos pobres e estes optaram pelo neopentecostalismo”?

Eu penso que essa frase, tão repetida, tem problemas. Primeiro, não se pode entender a força da teologia da libertação sem a rede imensa das comunidades eclesiais de base, que teria chegado a mais de 100 mil nas décadas de 1980-90 no Brasil. Muitos pobre optaram por elas, que são uma forma específica de organização de comunidade no interior da Igreja Católica. Mas, como há muitos pobres na América Latina, muitos optaram pelo pentecostalismo. Porém, é preciso apontar que não há um só tipo de igrejas pentecostais. Penso que muitas comunidades ou congregações pentecostais também fizeram um grande trabalho em relação aos pobres, na linha de opção por eles, mesmo quando não usavam essa terminologia.

Diante do avanço numérico da Igreja Evangélica, fenômeno constante e crescente desde os anos 1970, já se fala numa possível quebra da hegemonia católica ainda na primeira metade deste século. O senhor concorda que isso deva acontecer?

É difícil fazer esse tipo de previsão, pois a sociedade não funciona como uma máquina. Além disso, o crescimento numérico das igrejas evangélicas e pentecostais já está em um ritmo menor do que em anos anteriores. E isso é normal, na medida em que uma boa parcela da população suscetível de mudar de crença já foi atingida pelas igrejas evangélicas. Na minha opinião, se uma igreja, seja Católica ou evangélica, faz do aumento do número de seus membros o seu principal objetivo, ela perdeu de vista a missão principal do cristianismo. A missão das igrejas cristãs é anunciar o Reino de Deus, que é amor solidário, perdão, misericórdia e justiça para a humanidade, e não entrar em competição para ver qual é a maior. Como disse Jesus, a igreja que quiser ser a maior tem que assumir a atitude do menor e servir. Por isso, eu não me preocupo muito sobre o que a Igreja Católica deve fazer para frear o avanço das igrejas evangélicas, mas sim, acerca de como ela poderia servir mais e melhor a Deus no serviço ao povo que sofre.

Que personalidades intelectuais evangélicas o senhor respeita por sua capacidade de diálogo com a academia?

Eu respeito e admiro muitas pessoas do mundo evangélico. Por isso, nomear alguns seria correr risco de esquecer muitos. Mas, como não é possível viver, e nem dar entrevistas, sem correr riscos, vou nomear alguns só para que os leitores tenham ideia do meu círculo de relacionamento: René Padilla, teólogo da missão integral, e Néstor Miguez, teólogo metodista argentino; e os pastores Ed René Kivitz (batista) e Ricardo Gondim (pentecostal). Todos eles estão em minha biblioteca, assim como Milton Schwantes, Julio de Santa Ana, Elsa Tamez, Junger Moltmann, Dietrich Bonhoeffer, C.S. Lewis e muitos outros protestantes e evangélicos.

O senhor apresenta-se como um leigo católico, mas tem excelente trânsito em vários círculos evangélicos e ocupa cargos de direção acadêmica em uma instituição de orientação protestante. Como é o seu diálogo com os variados segmentos evangélicos, sobretudo aqueles mais ortodoxos, como os representados por instituições como Instituto Mackenzie, Seminário Servos de Cristo e Faculdade Teológica Batista?

Eu tenho bons relacionamentos com diversos professores dessas instituições e, quando a correria de São Paulo nos permite, mantemos bons diálogos. É importante ressaltar que diálogo só é necessário quando pensamos diferente, e só se torna possível quando temos um objetivo em comum. Eu lhes apresento as minhas ideias a partir de textos bíblicos em uma atitude de respeito e diálogo.

No seu entender, como está a formação teológica hoje, no Brasil?

É muito difícil falar de formação teológica no Brasil porque há uma diversidade muito grande. Mas, penso que enfrentamos um problema fundamental. Grosso modo, podemos dividir a formação teológica em dois grandes grupos. Um deles é o dos seminários que fazem da leitura mais literal da Bíblia o eixo central da sua formação, com muito pouca abertura para diálogo com as ciências humanas e sociais contemporâneas; o outro, com os seminários de linha mais liberal, com ênfase nos conceitos teológicos e filosóficos, com uma preocupação forte na desmitificação dos textos bíblicos. O problema é que seminários do primeiro tipo não conseguem mais dar conta das perguntas e demandas dos setores do mundo evangélico que têm acesso à formação universitária ou à cultura moderna. Por isso, cada vez mais jovens e lideranças dessas igrejas procuram escolas teológicas com maior consistência teórica. Porém, essas pessoas são movidas por experiências religiosas e por linguagens simbólico-bíblicas que são criticadas pelo pensamento teológico liberal. Assim, surge um conflito, uma dificuldade de diálogo entre professores e alunos nesses seminários.

Por que não há uma fusão das duas demandas, sobretudo visando à formação de pastores mais capacitados?

Isso exigiria a criação ou fortalecimento de modelos de seminários teológicos que valorizem a experiência religiosa e a linguagem simbólica sem, contudo, perder a seriedade teórica. No fundo, exige um novo modelo de fazer teologia e de educação teológica. Eu tratei mais longamente desse desafio na segunda parte do livro Missão e educação teológica, que escrevi com Lauri Wirth e Néstor Miguez [Editora Aste]. Na medida em que superarmos esse impasse, vamos encontrar uma formação teológica que não crie dicotomia entre a formação de pastores ou de teólogos. Os pastores precisam se formação teológica séria para realizar sua missão hoje; e quem quer seguir a carreira de teólogo precisa também ter bom conhecimento das práticas pastorais.

Se, como o senhor disse recentemente, a salvação não pode ser exclusiva do cristianismo, quais seriam os outros caminhos utilizados por Cristo para salvar o homem?

Segundo o evangelho de São João, e também nas suas cartas, Cristo nos ensina que Deus é amor e que quem ama o próximo, como o bom samaritano, está em Deus – e Deus está nele. A Primeira Carta de João nos ensina que ninguém jamais viu a Deus; mas, quando amamos uns aos outros, o amor de Deus se faz presente ou se realiza em nós. É nisso que creio. O Espírito do Cristo ressuscitado salva seres humanos no amor e por amor. O cristianismo é importante porque ensina isso, e não porque é meio exclusivo de salvação.

A Bíblia, para os evangélicos, é a Palavra de Deus. No seu entender, há outras formas de revelação divina comparáveis às Escrituras?

Segundo a Bíblia – por exemplo, na epístola aos Hebreus, capítulo primeiro –, a Palavra de Deus é a pessoa de Jesus. Deus nos fala através da pessoa de Jesus e não através da Bíblia, que é um conjunto de livros. Essa é uma confusão que muitos fazem. Para termos acesso a Cristo, para entendermos bem a vida e a pessoa de Jesus, que nos revela a face de Deus, precisamos da Bíblia – que contém a memória dos que viveram a experiência de serem tocados por Deus ou que conheceram a Jesus. Como a vida de uma pessoa como Jesus é muito rica, a Igreja primitiva definiu um conjunto de livros, que forma o Novo Testamento, como portadores da memória de sua vida e de seus ensinamentos. Muitas cartas são explicações ou admoestações sobre como as comunidades estavam vivendo a fé em Jesus. Em resumo, segundo a própria Escritura Sagrada, a Bíblia nos leva a conhecer a pessoa de Jesus, que é a Palavra de Deus encarnada entre nós. Em resumo, mesmo correndo risco de ser mal interpretado, eu quero dizer que para cristianismo não há revelação comparável à Escritura – por isso, somos cristãos–, mas a própria Escritura nos diz que o Espírito de Deus sopra onde quer; assim, creio que Deus se revelou à humanidade para além do cristianismo. Mas creio nisso a partir da Bíblia.

Em seu livro Ilusão ou realidade? (Ática), o senhor fala da oração como um momento de discernimento, entre outras coisas, acerca do melhor caminho para a concretização de atos de amor que anulam nossa ideia de impotência diante dos clamores do mundo. No seu entendimento, o que mais a oração pode representar para o cristão?

A oração é, acima de tudo, uma atitude de se colocar diante de Deus de forma humilde – pois só o fato de sabermos que nos colocamos diante de Deus deve nos levar a uma postura de humildade. É o momento em que buscamos a vontade de Deus, e não o nosso desejo egoísta ou as vontades colocadas em nós pelo mundo e por sua mídia. Na medida em que discernimos a vontade de Deus, pedimos força espiritual para seguirmos nesse caminho, pois sem essa força que vem de Deus não seremos capazes de resistir às tentações que o mundo nos oferece, com suas vaidades de sucesso e egoísmo. Oração é, também, momento de pedirmos perdão, confiando na misericórdia infinita de Deus. Há momentos em que essa oração precisa ser feita na solidão diante de Deus; em outras situações, é importante que seja feita de forma comunitária.

O senhor mentoreou o pastor Ricardo Gondim em sua dissertação de mestrado A Teologia da missão integral: Aproximações e impedimentos entre evangélicos e evangelicais , aprovada em 2009. Ultimamente, Gondim tem sido considerado extremamente heterodoxo em algumas de suas falas acerca da fé cristã – sobretudo, quando aborda o teísmo aberto e a doutrina da salvação. No seu entender, até que ponto as suas posturas influenciam Gondim e qual o resultado disso sobre o ministério dele?

Em primeiro lugar, quando Ricardo Gondim veio fazer mestrado sob minha orientação, ele já tinha essas ideias. Portanto, não penso que eu fui o influenciador dessa postura teológica dele. Em segundo, é preciso perguntar quem considera a teologia dele herética. Essas pessoas têm suas teologias e suas vidas cristãs acima da suspeita e, por isso, detêm tal autoridade? Eu li vários textos de Ricardo Gondim e não acho que sejam heréticos. Não concordo com tudo, mas isso não significa que sejam heréticas. Ele tem insistido muito em que a salvação é graça, fruto da misericórdia de Deus. Não há nada mais protestante do que isso! Na verdade, penso que o que mais incomoda nas pessoas é a afirmação, que não é original dele, de que Deus não tem controle sobre a história. Ora, mas isso é bíblico!

Como assim?

Se Deus tivesse controle sobre tudo o que acontece, tudo o que acontece seria da vontade dele. Mas, na Bíblia, encontramos inúmeros chamados de Deus à conversão e ao arrependimento, o que mostra que ele não estava de acordo com o que acontecia no povo de Israel. O chamado à conversão e a própria missão das igrejas só têm sentido se a história humana é feita de liberdade. Só há conversão, se há liberdade. E se há liberdade, não há predeterminação divina. Muitas pessoas preferem a falsa segurança que a teologia do controle absoluto de Deus parece dar do que a verdadeira mensagem da Bíblia: o chamado à conversão e a vida na fé. Por isso, pastores como Ricardo Gondim e outros dessa linha são objetos de crítica. Mas, não há como seguir o caminho de Cristo sem também compartilhar da cruz dele.

Mas a ideia de que Deus por ser “pego de surpresa” – como, por exemplo, o teísmo aberto chega a sugerir diante de grandes catástrofes como o tsunami de 2004 – não diminui sua qualidade de Senhor sobre tudo e todos? A soberania divina não ficaria sublimada na teologia relacional?

Há duas formas de entender a noção de soberania de Deus. A mais comum é usar o mesmo sentido daquele dado ao poder de imperadores e reis. Um soberano tinha poder de vida e morte sobre os súditos, seu povo, porque estava acima da lei – ou seja, sua vontade era a lei. Assim era, por exemplo, no Império Romano e na Idade Média europeia. A afirmação da soberania de Deus não significa atribuir a ele essas mesmas características do imperador, o que seria terrível! Dizer que Deus é soberano é afirmar que imperadores, reis ou governantes de todo tipo não têm ou não deveriam ter esse poder de vida e morte, pois tal prerrogativa só cabe a Deus. É relativização do poder do imperador. Em segundo lugar, Deus é um soberano, diferente dos reis que tudo controlam e tudo dominam (que vem da palavra dominus, senhor). A soberania de Deus é caracterizada por amor e liberdade: é esse o ensinamento de Cristo. Bem, Deus poderia ter sabido do tsunami antes do acontecimento? Não gosto desse tipo de especulação, pois só nos leva a uma vaidade intelectual de querer saber sobre a mente do Senhor. O que posso dizer é que a história humana é feita de liberdade e nós somos chamados por Deus a viver o amor solidário e livre neste mundo marcado por injustiças e sofrimentos, mas, também, por alegrias e esperanças.

Então, como o que o senhor chama de Deus “padrasto-sádico” em seu livro Deus – Ilusão ou realidade (Ática) mais se manifesta?

Precisamos nos recordar que, quando Deus se revelou a Abraão, a Moisés ou aos profetas, os povos já tinham religiões e acreditavam em deuses. A revelação bíblica não é para ensinar que Deus existe, mas para ensinar a discernir a verdadeira imagem de Deus das falsas. O “deus padrasto-sádico” é muito comum nas religiões, e também nas igrejas cristãs. Confundimos Deus com dominadores, com ditadores sádicos que se apresentam como pais da pátria. O estudo da Bíblia e da teologia é importante exatamente para ajudar as comunidades cristãs e o povo em geral não cair nessas mentiras, ou na “idolatria”, como diz a Bíblia. Deuses que exigem sofrimento e sacrifícios para a salvação ou que justificam injustiças em nome de “mistério da salvação” são, segundo a Bíblia, deuses falsos, isto é, ídolos. Como ensinou Jesus, Deus quer misericórdia, e não sacrifícios.

Em que medida uma teologia considerada herética pode contribuir para o amadurecimento da fé de um cristão?

Nós só pensamos seriamente na nossa fé e amadurecemos a compreensão e a vivência dessa fé na medida em que somos enfrentados por formas diferentes de pensá-la e de vivê-la. Por isso, teologias consideradas heréticas têm o papel importante de nos fazer pensar. Além disso, é preciso perguntar: quem considera essas teologias heréticas? Quem tem esse poder, ou qual é a instância do magistério para definir heresia no mundo evangélico? Na Igreja Católica, esse poder está no Vaticano ou nos Concílio dos Bispos; mas, nas igrejas evangélicas, parece-me que não há essa instância. Por isso, é preciso perguntar, antes de mais nada: quem disse que tal teologia é herética? Não podemos nos esquecer que Jesus foi considerado blasfemo e herético pelos sacerdotes e teólogos da sua religião.

Data: 15/11/2012

Fonte: CRISTIANISMO HOJE

Entrevista com Ricardo Gondim


“Deus nos livre de um Brasil evangélico”, diz pastor, crítico dos movimentos neopentecostais

Por Gerson Freitas Jr (Carta Capital)

“Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”, diz na entrevista a seguir.

CartaCapital: Os evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?

Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.

CC: Como o senhor define esse perfil?

RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.

CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?

RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.

CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?

RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?

CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.

RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.

CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?

RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.

CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?

RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.

CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?

RG: Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.

CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.

RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

Data: 23/05/2011

Fonte: Carta Capital

Entrevista com Russell Shedd


O respeitado teólogo defende o retorno da Igreja à Palavra de Deus e à obra missionária.

Por Carlos Fernandes

Não é muito comum um líder religioso chegar aos 80 anos em plena atividade. Mais raro ainda é ter atravessado todo este tempo mantendo um ministério de visibilidade internacional. Agora, privilégio mesmo é poder ostentar uma reputação inabalada e manter-se como referência de conhecimento bíblico e saber teológico em idade tão avançada. Pois Russell Philip Shedd entrou para o rol dos octogenários em 10 de novembro passado com todas essas características. Missionário de origem americana, ele está radicado no Brasil desde 1962. Neste quase meio século, tem prestado decisiva colaboração à Igreja nacional, seja através de seus livros e trabalhos de cunho teológico, seja com suas pregações, conferências e palestras.

Shedd é um teólogo com grande preparo. Com apenas 20 anos, graduou-se no Wheaton College, nos Estados Unidos. Ali, especializou-se em hebraico e grego – línguas bíblicas cujo conhecimento considera fundamental para uma correta interpretação das Escrituras. Em seguida, tornou-se mestre em teologia e, mais tarde, doutor em filosofia e Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, na Escócia. Mas o saber não fez dele um acadêmico arrogante, desses que enxergam a divindade com a frieza dos livros. “O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o nosso relacionamento com Deus”, afirma. “E ainda produz muita dependência dele também”. Para manter a comunhão com Deus, a receita desse veterano da fé é simples: “Acordo todo dia antes das cinco da manhã. Assim, é possível dedicar uma hora ou mais à leitura bíblica e à oração.”

Com vinte livros publicados, Russell Shedd é muito conhecido no Brasil como fundador de Edições Vida Nova, casa publicadora especializada em obras teológicas pela qual lançou a Bíblia Vida Nova em 1977, abrindo o mercado para a popularização das versões de estudo das Escrituras Sagradas. Foi também professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo durante 30 anos e pastor da Metropolitan Chapel, congregação fundada por ele na capital paulista, onde vive e permanece ligado à denominação Batista. Missionário jubilado, Shedd tem um padrão de vida simples, razão pela qual não aceita que o líder evangélico ostente riquezas. “Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado”, comenta. O “senhor Bíblia” – como muitos o chamam, à sua própria revelia – concedeu esta entrevista a CRISTIANISMO HOJE:

CRISTIANISMO HOJE – O senhor tem um dos mais invejáveis currículos de formação teológica entre os líderes cristãos que atuam no Brasil. É difícil conciliar tanto conhecimento com a simplicidade de um relacionamento com Deus?

RUSSELL SHEDD – Não, não acho difícil. O conhecimento não enfraquece a fé; pelo contrário, auxilia o relacionamento com Deus. E produz muita dependência dele também.

De modo geral, como é o nível do conhecimento do crente brasileiro acerca de Deus e de sua Palavra?

Creio que um problema em diversas igrejas é a falta de ensinamento que explique mais detalhadamente a Bíblia toda. Por exemplo: quantos creem num inferno eterno? E muitos crentes têm uma aversão contra a soberania de Deus, tal como a Palavra ensina.

Em 1962, quando o senhor chegou ao país, o panorama religioso nacional era completamente diferente do de hoje. Faça um paralelo entre a situação espiritual que encontrou naquela época e o que se vê atualmente.

Uma das principais diferenças foi que, naquele início dos anos 1960, as igrejas tradicionais condenavam interpretações e práticas pentecostais, como dons de línguas, profecia e curas miraculosas. Tais manifestações eram consideradas quase como heréticas. Hoje, as igrejas mais tradicionais tendem a condenar a teologia da prosperidade e os ensinamentos dos neopentecostais por falta de base bíblica. Os seminários proliferam, embora o ensino bíblico, em muitos casos, seja bastante superficial. E o interesse em missões continua sendo muito precário.

Então, apesar da haver mais seminários, o panorama do ensino teológico no Brasil não é bom?

Muitas igrejas montaram suas próprias escolas teológicas. Claramente, hoje temos muitas escolas sem professores treinados. O liberalismo teológico tem sido tirado de algumas escolas, enquanto em outras continua sendo uma opção que os alunos não têm habilidade para julgar ou avaliar. A leitura de autores como Tillich e Bultmann pode dar a ideia de que não há muita diferença entre o liberalismo e ortodoxia. Um bom número de autores teológicos modernistas está aí, no mercado editorial. Ao mesmo tempo, há um crescente número de excelentes opções de autores que abraçam firmemente a inspiração plenária das Escrituras e a ortodoxia tradicional.

O reconhecimento dos cursos teológicos evangélicos pelo Ministério da Educação pode ser uma solução?

Não acho que esse reconhecimento seja positivo, uma vez que os professores precisam adquirir graus de mestrado e doutorado, muitas vezes orientados por professores liberais. E a vantagem de fazer um curso reconhecido se perde na medida em que os pastores se tornam mais, digamos, profissionais.

Como um ex-editor, o que o senhor acha do segmento editorial evangélico hoje? A realidade do mercado sufoca a vocação ministerial?

Não há dúvida de que, se não existir um mercado editorial, as editoras não podem sobreviver. Claro, elas também têm de ter um caráter de missão, para poder escolher títulos que o povo precisa ler. É óbvio que há muitos títulos no mercado que acho de pouca importância, mas isso não quer dizer que não haja muitos leitores que buscam informação e encorajamento nesses livros. Existe também uma outra questão. Algumas editoras evangélicas têm receio de publicar livros liberais, que poderiam destruir a fé dos leitores. Mas aquelas que publicam tais livros têm interesse no mercado e no aparecimento de outros autores “famosos”, mesmo que não sejam crentes evangélicos.

A popularização das Bíblias de estudo temáticas – como Bíblia da mulher, Bíblia das profecias, Bíblia dos pequeninos, Bíblia do executivo – tem beneficiado as editoras, que investem cada vez mais em novos lançamentos do gênero. Essa corrida pelo mercado é boa ou ruim?

Não acho ruim, uma vez que qualquer ajuda que o leitor recebe dessas bíblias somente poderia trazer benefícios. Não seria o caso se as notas fossem tendenciosas, oferecendo interpretações falsas.

Na diversidade de versões e edições que hoje existem da Bíblia, qual deve ser o parâmetro de escolha do crente em termos de fidedignidade?

O que importa é que a tradução escolhida não acrescente alguma ideia que o autor do original não tinha. Fidelidade na tradução sempre tem que reproduzir a ideia do original. Ela não pode incluir nem excluir algo que o texto hebraico ou grego diga.

O senhor é o presidente emérito de Edições Vida Nova, casa publicadora que ao longo dos anos tornou-se referência em obras de cunho teológico, e consultor da Shedd Publicações. Num mercado dominado por livros de cunho motivacional, a literatura teológica ainda encontra espaço?

Graças a Deus, sim. As vendas de livros publicados pelas Edições Vida Nova, bem como de Shedd Publicações, têm aumentado ano a ano, juntamente como o crescimento do público evangélico.

O que deve ser feito pelas editoras para que as obras de conhecimento teológico não sejam apenas livros de referência para professores e estudiosos, mas também tenham apelo para o crente comum, o membro de igreja?

Os editores estão de olho naquilo que vende. Eles sempre seguirão o que a pesquisa de mercado indica que será um sucesso. Mas para aproximar as obras teológicas dos leitores comuns será evidentemente necessário tornar esses livros mais populares. Por exemplo, os manuais bíblicos. Hoje existem manuais de todos os níveis.

Em seus livros O líder que Deus usa e A oração e o preparo de líderes cristãos, o senhor enfatiza a necessidade do caráter e do exemplo que o pastor deve dar às suas ovelhas. Qual sua impressão sobre a integridade pastoral hoje?

Infelizmente, temos ouvido sobre casos tristes de quedas de líderes no adultério, no nepotismo e na corrupção. Os pecados que destroem o ministério do líder muitas vezes são esquecidos pelas igrejas, que acham que o pastor é um homem de Deus e não deve ser demitido por um “tropeço”, especialmente se for um líder muito popular. A verdade é que sempre tivemos quedas de líderes durante a história, mas parece que a integridade deles hoje sofre desgaste maior.

Como evitar a excessiva vinculação da congregação a seu dirigente, de modo que a eventual queda do líder não represente um golpe inevitável na comunidade?

A queda de líderes muito proeminentes, isolados e sem o acompanhamento de bons auxiliares, torna-se um desastre para a igreja. Quando presbíteros e diáconos – ou seja, o segundo escalão na liderança da igreja – são muito responsáveis, acompanhando de perto o ministério do dirigente da congregação, é possível, em muitos casos, amenizar os efeitos de uma eventual queda.

Uma das expressões dessa concentração de poder nas mãos dos líderes é o uso de título eclesiais, como o de bispo ou apóstolo. Biblicamente, qual é a legitimação disso?

O ensinamento de nosso Senhor sobre a necessidade de humildade e disposição de servir deve nos advertir sobre o perigo de procurar alguma autoridade que deve ser unicamente de Cristo. Não acho positiva a adoção de títulos que não sejam bíblicos. Bispo é um título bíblico, mas significa apenas “supervisor” e não alguém que domina a vida de outros líderes e pastores. Aliás, o único texto que menciona pastor humano no Novo Testamento é o de Efésios 4.11, onde o grego dá a entender que o pastor deve ser um mestre.

Já a nomenclatura apóstolo, a não ser em raros casos, refere-se às pessoas que Jesus apontou pessoalmente – razão pela qual Paulo argumenta, na sua primeira Epístola aos Coríntios, que viu o Senhor ressurreto e que Cristo apareceu para ele em último lugar. Já Filipenses 2.25 registra o termo “apóstolo” no original, fazendo referência a Epafrodito, que foi autorizado especificamente para levar os donativos da igreja de Filipos a Paulo. Logo, ele foi apóstolo da igreja de Filipos, tal como Barnabé e o próprio Saulo o foram da igreja de Antioquia.

Muitos dirigentes denominacionais justificam a própria opulência argumentando que a prosperidade financeira do líder é sinal da bênção de Deus. Isso tem base bíblica?

Não creio que o ensinamento do Novo Testamento favoreça em algum momento o ato de esbanjar ou gastar somas grandes para provar que Deus nos tem abençoado. Jesus mandou o jovem rico vender o que ele tinha para dar o produto aos pobres. Fica evidente que o Senhor é completamente contrário a que os líderes gastem dinheiro em luxo ou desnecessariamente.

O que faz um líder cair e ficar pelo caminho, transformando seu ministério em motivo de escândalo?

Creio que a falta de cuidado em buscar uma intimidade com Deus todos os dias, evitando a aparência do mal. Acredito que quedas ocorrem quando não achamos possível cair, ou quando ficamos seguros e até orgulhosos de nossa espiritualidade.

Quais têm sido as suas fontes de sustento ao longo desses anos todos?

Nós chegamos de Portugal em 1962, sustentados pela Missão Batista Conservadora. Ao longo desse tempo, igrejas e crentes da América do Norte enviaram suas ofertas missionárias para manter nossa família [Shedd é casado com Patricia e tem cinco filhos]. Hoje, esta entidade chama-se World Venture e continua sustentando missionários em muitos paises do mundo. O nível de sustento é determinado pela missão de acordo com o custo de vida do país no qual o missionário vive. Desde janeiro de 2008, nossos recursos vêm do plano previdenciário Social Security e de uma aposentadoria fornecida pela própria missão. Não temos sofrido nenhuma falta.

Em sua opinião, por que entidades associativas de pastores e líderes, como a Associação Evangélica Brasileira (AEVB), enfrentam problemas de continuidade? Falta interesse dos pastores em participar desses movimentos associativos?

Vários motivos explicam a falta de interesse em entidades associativas. Poucos acham importante, ou de grande benefício, esse tipo de associação. A maioria dos pastores estão tão ocupados com seus programas, planos e ministérios que não acham que vale a pena contribuir e trabalhar para alguma entidade além da própria denominação.

Em quê o conhecimento das línguas bíblicas originais pode ajudar na prática da pregação?

A importância de estudo das línguas originais reside no fato de que através dele se pode explicar melhor o significado que certos termos e frases tinham quando o autor escreveu o texto bíblico. A diferença entre as culturas bíblicas e a cultura ocidental em que vivemos hoje requer bastante cuidado para se entender a visão de mundo e os valores que regeram os escritos bíblicos. Além disso, as línguas originais ajudam chegar a conclusões mais seguras acerca do que dizem as Escrituras. Trabalhar com o texto original leva o pastor a pregar com mais cuidado e a poder afirmar: “Assim diz o Senhor”. Bons comentários também ajudam na tarefa de buscar o sentido do texto.

Essa falta de conhecimento é o motivo de tantas pregações superficiais?

Não é apenas isso. Imagino que os pastores e professores de Escola Bíblica Dominical não têm tempo ou muito interesse em examinar as Escrituras para saber de fato o que o autor queria comunicar. Preferem usar uma hermenêutica que recorre a alegorias sobre o texto bíblico. Assim, é possível dar uma interpretação muito diferente daquela que a Bíblia ensina.

Qual o tempo adequado para o preparo de uma mensagem consistente?

Varia muito. Alguns pregadores podem chegar à proposição, ou seja, ao ensinamento central do texto, com mais facilidade do que outros. Daí, procurar os argumentos dentro do texto que sustentem a proposição demora também. O professor Karl Lachler, que lecionou muitos anos na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, dizia que uma hora de estudo por cada minuto de mensagem parece exagerado... Porém, aquele que estuda e medita para chegar ao cerne da mensagem do texto, além de buscar os argumentos dentro do trecho escolhido que comprovem essa proposição, pode gastar bastante tempo. Infelizmente, cuidado no preparo de mensagens que alimentem o rebanho e a realização de visitas para conhecer bem as vidas dos membros e confrontar aqueles que não estão obedecendo às ordens do Senhor têm sido práticas esquecidas em muitas igrejas. Pastores santos, crentes firmes na veracidade da Bíblia, com famílias ajustadas, que buscam ao Senhor com muita oração e fé, produzem igrejas de qualidade.

A Igreja contemporânea está sempre buscando novas formas de crescer, e muitas congregações recorrem a modelos empresarias de gestão e marketing. O que o senhor pensa de incorporação de tais elementos à obra de Deus?

Não tenho nada contra o crescimento das igrejas, desde que ele não ocorra em detrimento da qualidade da formação dos membros na imagem de Cristo, conforme preconiza o texto de Romanos 8.29. Sou muito a favor do crescimento do número dos genuinamente convertidos e nascidos de novo. O problema surge quando, no interesse de aumentar o tamanho da igreja, deixa-se de lado a santificação dos membros. Ora, sem a santificação, conforme Hebreus 12.14, ninguém verá o Senhor! Ocorre que modelos de gestão eclesiástica não têm tido muito sucesso no discipulado e na formação de homens e mulheres de Deus. Uma igreja muito grande pode ter dificuldades em integrar os fiéis num plano de crescimento espiritual verdadeiro. Com o aumento do número dos membros, é muito fácil perder os indivíduos de vista. Além disso, numa igreja grande os crentes muitas vezes não se sentem responsáveis para servir, contribuir, discipular ou alcançar novos convertidos, especialmente se houver na comunidade líderes pagos para cumprir esse papel. Por outro lado, uma igreja grande tem recursos pessoais e financeiros para se comprometer com grandes projetos e muitos ministérios.

Então, qual deve ser o objetivo de uma igreja?

O alvo bíblico descrito em Colossenses 1.28 – proclamação, advertência, ensino com toda sabedoria e entendimento espirituais – é o objetivo que todo pastor e igreja devem considerar como prioridade.

Na sua opinião, a mídia eletrônica é um bom púlpito?

A televisão pode, sim, ser um bom canal para se explicar o Evangelho. Mas ela tem sérias deficiências também: as pessoas não são discipuladas se não se tornam membros ativos da família de Deus. Um compromisso muito sério com uma igreja local que ensine a Palavra de Deus com autoridade é o caminho do discipulado e do crescimento espiritual.

De alto de sua experiência, o que o deixa preocupado em relação ao futuro da Igreja brasileira?

A minha preocupação se concentra na qualidade espiritual da liderança e dos membros das igrejas. É assustador ver a quantidade de divórcios que ocorrem hoje entre casais evangélicos e a falta de integridade por parte dos líderes. Também fico muito preocupado com a proliferação de ensinamentos que não são bíblicos, como a teologia da prosperidade, que nega a necessidade de o crente negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir a Jesus.

Qual a sua compreensão acerca do que seja um avivamento?

O avivamento tem algumas evidências. Uma delas é quando o Senhor e sua Palavra têm mais importância do que o dinheiro ou qualquer outra coisa material. Avivamento cria arrependimento profundo pelos pecados cometidos e muita alegria no Senhor ao reconhecer seu perdão. Para uma Igreja avivada, o evangelismo se torna algo natural e as missões transculturais, uma prioridade, uma vez que Jesus mandou seus servos fazerem discípulos de todas as nações.

Logo, ao contrário do que se diz, a Igreja brasileira hoje não experimenta um avivamento?

Não acredito que o que acontece hoje, com o rápido crescimento da Igreja, seja um avivamento de verdade. O que eu vejo é que falta temor do Senhor, arrependimento profundo e interesse por missões.

O senhor é filho de missionários americanos que aqui chegaram na primeira metade do século passado, época em que obreiros estrangeiros tinham grande influência no Brasil. Hoje em dia, sendo o país uma potência evangélica, ainda há espaço para eles?

De fato, a influência de missionários estrangeiros aqui é cada vez menor. Mas ainda há áreas em que obreiros vindos de fora poderiam ser úteis, como no preparo para as missões transculturais. O treinamento em determinadas áreas, como antropologia, linguística e informação acerca de povos não alcançados continua sendo uma área em que os missionários estrangeiros podem ser muito úteis à Igreja brasileira.

Pode-se dizer que já existe uma teologia genuinamente nacional?

Creio que teologia nacional, brasileira, seria aquela alicerçada em nossa história e cultura. Não acho que poderia encontrar uma visão como essa bem divulgada no Brasil. Ainda há muita dependência dos livros estrangeiros e de modelos de igrejas que tendem a copiar o que se faz em outros países.

Do que o senhor sente falta na Igreja de hoje e que já viu em outros tempos?

De um lado, mais ensino da Palavra, mais preocupação com santificação e mais investimento em missões transculturais. De outro, uma Escola Dominical mais forte, uma hinologia alicerçada na teologia bíblica e mais livros de ensino sério.

Fonte: Cristianismo Hoje

Data: 03/05/2012

Entrevista com Viv Grigg


Missionário que treina obreiros para atuar em favelas defende que riqueza e dízimos devem ser usados para socorrer carentes.

Por Carlos Fernandes

Com um jeito simples, fala mansa, sorriso tímido e olhar pacato, Viv Grigg facilmente passaria despercebido, não fosse pela notória aparência de estrangeiro. Mas por trás de seu temperamento tranquilo e comedido, este neozelandês de 58 anos faz um trabalho de gigante. Oriundo de uma família de posses, decidiu abrir mão dos confortos da vida abastada para viver em favelas miseráveis de países pobres e levar o Evangelho de Cristo aos mais necessitados. Munido de conhecimentos adquiridos em seu mestrado e doutorado em teologia, seguiu o que entende ser o exemplo de Jesus na encarnação: deixou sua realidade para viver o dia a dia dos carentes.

Grigg veio ao Brasil para compartilhar sua visão com os cristãos do país. Trata-se de uma filosofia de ação que ele batizou de “avivamento transformador”. Seu objetivo é treinar uma tropa de missionários urbanos locais para se unir a um exército internacional disposto a entrar nas favelas, mesclar-se à comunidade a compartilhar as boas novas de salvação com cores econômicas, sociais e políticas. Já há muita gente fazendo isso, por certo; mas Grigg enfatiza a necessidade de treinamento para que pastores e missionários urbanos possam de fato promover transformação social através do Evangelho. Ele coordena a Urban Leadership Foundation (www.urbanleaders.org, por enquanto apenas em inglês), entidade que é a base do projeto.

Mas esse batista de berço tem uma razão a mais para vir ao Brasil: ele é casado há vinte anos com a missionária brasileira Ieda, da Igreja Metodista Livre, com quem tem três filhos. Por isso, sua relação com o país é especial. “Quero encontrar cinco mil brasileiros que aceitem esse desafio”, anuncia. Autor de O grito pelos pobres e Servos entre os pobres (Ultimato), que está em sua segunda edição, Grigg tem uma visão bem própria acerca da teologia da prosperidade, riqueza e mutualidade. “Não é pecado ser rico, desde que se viva com simplicidade e se ajude os outros”, pontifica. No seu entender, e ao contrário do que boa parte da itelligentzia prega, programas governamentais que normalmente são acusados de assistencialismo podem ser boas iniciativas. Durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, Viv Grigg recebeu a reportagem de CRISTIANISMO HOJE para esta entrevista exclusiva nas dependências do Seminário Teológico Betel, que colaborou no agendamento do encontro.

CRISTIANISMO HOJE – A Igreja Evangélica brasileira é hoje muito influenciada pela teologia da prosperidade. O pobre realmente precisa de promessas materiais para seguir a Cristo?

VIV GRIGG – Sim, precisa. Mas isso não tem necessariamente a ver com a teologia da prosperidade. Quando a pessoa se converte, imediatamente ela ora e Deus começa a responder suas orações. A conversão a leva a integrar-se a uma comunidade de fé, que também é uma comunidade econômica, na medida em que todos ali se ajudam. Então, o indivíduo começa a abandonar determinados pecados – alcoolismo, dependência de drogas, violência doméstica... Quando essas coisas mudam, a situação econômica da família começa a se transformar, e essas são graças imediatas da conversão. Apesar das críticas que sofre, o pentecostalismo gerou um grande impacto: a vida das pessoas mudou, o senso de comunidade promoveu benefícios econômicos resultantes de uma ajuda mútua e seus participantes desenvolveram um senso de identidade. Isso é parte das bênçãos de Deus. O Senhor quer que nós tenhamos o suficiente para viver. Essa parte da doutrina é correta, bíblica e muito boa para os pobres. No entanto, isso não inclui mansões, carros de luxo e um estilo de vida esbanjador.

Então, o problema da teologia da prosperidade é a busca desenfreada pela riqueza?
Os ensinamentos mudam na medida em que as pessoas ascendem em seus padrões de vida. O problema da teologia da prosperidade é que ela não faz essa distinção; ela ensina que todos devem ter um padrão de vida nababesco, mas isso é anátema para Deus. Existe um padrão de vida que é justo – e que não é igual para todos. Mas é fácil perceber qual é o estilo de vida justo: é possível a um rico viver de forma simples e usar sua riqueza para ajudar os outros. Isso é o que eu ensino para a classe média e os ricos. Outro problema da teologia da prosperidade é que ela afirma que, se as pessoas derem, Deus vai abençoar. Não existe nada na Bíblia que diga que, se você der dinheiro, então Deus vai lhe abençoar. Existe uma manipulação para o ganho pessoal, que é o pecado de Ananias e Safira. E eles morreram, porque Deus amaldiçoou esse pecado.

Há alguma base bíblica para se dizer que o pobre é abençoado por Deus, como ensina a teologia da libertação, ou que o rico é abençoado, como prega a teologia da prosperidade? Pobreza ou riqueza significam necessariamente bênção ou abandono por parte de Deus?
Pobreza é sempre uma maldição, e o Senhor quer que nós tiremos as pessoas da pobreza. Mas a riqueza, por outro lado, afasta as pessoas de Deus e remove delas a percepção espiritual. Então, existe um grande perigo na riqueza, e o melhor é que nos afastemos dela. Deus quer nos abençoar com bênçãos materiais. Isso não é um problema. A pobreza é uma maldição, mas os pobres são abençoados. A riqueza é uma bênção, mas os ricos são amaldiçoados. Temos então que entender o que isso significa. Aqueles que têm riqueza material precisam organizar suas posses em favor dos necessitados e viver com simplicidade. Eu ensino uma frase: “Ganhe muito, consuma pouco, guarde nada, dê generosamente e celebre a vida”. Essa tem sido uma frase muito útil para a classe média, pois estimula as pessoas a viver num nível simples, razoável e suficiente.

Mas hoje em dia, muitas igrejas, ministérios e líderes religiosos também enriquecem, quase sempre às custas dos dízimos e ofertas dos fiéis...
Ao longo da história, vemos que poder e riqueza na Igreja corrompem. Os apóstolos de verdade foram homens que sofreram grandemente. Paulo, embora fosse rico, optou pela pobreza por amor ao Evangelho. O apóstolo Pedro, junto com João, disse ao deficiente que estava na porta do templo que não tinha ouro nem prata. A marca de um apóstolo é o sofrimento, é estar entre os pobres. Os dízimos não devem ser dados para financiar sacerdotes ou igrejas. Na Bíblia, os dízimos eram dados em primeiro lugar para cuidar dos pobres. O que era dado aos levitas era o dízimo do dízimo, ou seja, um centésimo do valor total. Ao longo dos séculos, o princípio do dízimo tem sido abusado com o objetivo de acumular riquezas para as igrejas, enquanto as pessoas dentro delas continuam pobres. Isso não é correto. Afirmo que o dízimo deve ser entregue às igrejas para o benefício dos pobres. Na Igreja primitiva, os ricos vendiam seus bens e os entregavam aos apóstolos, que distribuíam aos pobres. Ou seja, os líderes não retinham o dinheiro para si. Abusar desse princípio é uma violação das Escrituras.

O Evangelho pregado aos pobres deve ser diferente daquele pregado às pessoas mais abastadas?
O Evangelho de Cristo é, ao mesmo tempo, o Evangelho da misericórdia e do juízo. Para os pobres, você ouve Jesus dizendo “venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”. Mas você encontrará Jesus confrontando os fariseus e os ricos, ressaltando como é difícil para um rico entrar no Reino dos céus. Qual foi seu conselho ao jovem rico? Que abandonasse tudo o que tinha e o seguisse. Mas aquele homem, apegado à sua riqueza, recusou. Então, o Evangelho, para o rico, é uma mensagem de juízo – ainda mais em um país como o Brasil, onde o enriquecimento geralmente se dá por meio da opressão do pobre ou da corrupção. Existem exceções, claro. E aqueles que ficam ricos por meios justos são abençoados por Deus. Veja que homens como Abraão e Salomão foram ricos e abençoados.

Sendo assim, que diferença deve haver entre o evangelismo voltado a um grande empresário e a pregação ao pobre?
São contextos muito diferentes. É preciso olhar os contextos, os meios utilizados na comunicação, o estilo. A mensagem não é muito diferente, mas a maneira de comunicá-la, sim. Os pobres gostam da verdade absoluta, das coisas ditas com autoridade e simplicidade. Já com a comunidade empresarial é necessário haver uma identificação com seu estilo de vida. Então, para alcançar empresários, você pode fazer um encontro em um restaurante ou em um salão especificamente preparado para isso. Certa vez, fiz uma apresentação do livro de Provérbios voltada para lideranças. Uma das pessoas que compareceram era o líder de uma empresa de seguros que, ao final, comentou comigo que jamais tinha imaginado que a Bíblia tivesse tanto a ver com a vida real. Você precisa trabalhar com as pessoas no meio em que elas estão e relacionar a mensagem de Cristo aos assuntos que têm a ver com sua vida.

Essa conexão com a realidade também deve nortear o discipulado?
Jesus não pregou um Evangelho puramente espiritual. Ele pregou um Evangelho que era espiritual, mas também econômico, social e político. Quantas pessoas foram até Cristo por intermédio do Evangelho espiritual? Basta ler a Bíblia. Nicodemos foi até ele por meio de uma discussão política. Zaqueu o procurou por meio de uma discussão econômica. Um quarto dos ensinamentos de Jesus é sobre aspectos econômicos. O discipulado é um assunto crítico. Eu diria que existe hoje um discipulado espiritual razoável: as pessoas sabem ler a Bíblia, orar, adorar. Mas não existe virtualmente nenhum discipulado econômico. E as áreas de relacionamentos sociais, relacionamentos conjugais, do caráter do discípulo, são muito fracas. E certamente se faz muito pouco discipulado voltado para aspectos políticos, de ordem pública. O resultado disso é que as pessoas não seguem a Cristo em todos os aspectos de sua vida. São piedosas apenas na igreja, aos domingos.

O evangelista Billy Graham diz que menos de 5% das pessoas que atenderam aos apelos para salvação em suas cruzadas ao longo das décadas permaneceram em Cristo. À luz da necessidade de customizar o evangelismo para pessoas de diferentes contexto sociais, como devemos encarar o evangelismo em massa?
Evangelismo em massa é parte do que devemos fazer. Existem benefícios que podemos extrair desse tipo de atividade, como o fato de muitas igrejas se unirem para esse tipo de ação. E a declaração pública da Palavra dá às pessoas um senso de identidade, a consciência de fazer parte de um povo. Mas para que haja a proclamação, primeiro é necessário haver a encarnação. Ou seja: é necessário primeiro estar entre as pessoas e estabelecer um relacionamento com elas, para que possam ver e escutar o Evangelho. As pessoas precisam ver e experimentar o amor de Deus de maneiras práticas, de modo que seja mais fácil para elas responder a esse amor. Não basta pregar; o ouvinte precisa ver o amor de Deus encarnado na vida daquele que prega. Também é fundamental ressaltar a importância da oração no evangelismo. São necessários de três a seis meses de oração antes de entrar em uma comunidade. Quando Deus age por meio da oração, então o Evangelho simplesmente se move com poder. A intercessão é um elemento crítico antes da proclamação. Existem muitas experiências na comunidade missionária internacional que comprovam isso.

A Missão Integral não seria uma utopia no âmbito do cristianismo como um todo?
Mas é bom ter utopias. Eu publiquei um livro sobre o espírito de Cristo nas cidades pós-modernas, em que procurei identificar como seria uma sociedade submetida ao Reino de Deus. Por outro lado, não creio que a Missão Integral seja uma utopia; prefiro vê-la como a busca pela totalidade do Evangelho que Jesus pregou. Gosto da Missão Integral, mas seu problema é que não acredito que ela vá longe o suficiente. E a dificuldade novamente é que ela vem dos teólogos de classe média. Repare que esse termo não tem significado para os pentecostais das classes baixas. Missão Integral? O que isso significa? Não faz sentido para eles. Tenho ensinado um outro termo, que é “avivamento transformador”. Para os pentecostais, você tem que começar de onde eles começam, que é do Espírito Santo, do avivamento. Mas qual é o objetivo do avivamento? O crescimento de igrejas? Não, o objetivo do avivamento é ver o Reino de Deus em cada núcleo da sociedade. Temos que começar com a transformação da sociedade, e as igrejas são um estágio intermediário para alcançar esse objetivo.

Houve alguém em especial que tenha marcado sua trajetória?
Todos nós temos nossos mentores entre os antigos. Eu li milhares de biografias, o que foi muito importante para mim. Mas poderia destacar o irmão Kagawa, do Japão, que nas décadas de 1930 e 40 viveu nas favelas por quinze anos e decidiu mudar as estruturas da sociedade. O que ele fez foi candidatar-se ao Parlamento, uma vez que vinha de uma família rica. Como político, ele transformou o Japão – criou diversas cooperativas, lutou contra os comunistas e reconstruiu Tóquio sem favelas. Kagawa costumava pregar até para o imperador. Pregava e agia: dez dias por mês ele pregava, e nos outros vinte, dedicava-se a ações sociais. Um homem notável.

Do ponto de vista da profecia bíblica, existe como erradicar a pobreza?
Jesus disse que os pobres sempre estariam entre nós. Portanto, não creio que seja possível erradicar a pobreza. Mas acredito ser totalmente viável reduzi-la, baixá-la a níveis mínimos. Na Costa Rica e em países da Europa a pobreza foi diminuída a níveis irrelevantes com relação ao passado.

No atual governo brasileiro, políticas de distribuição de renda ganharam força. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito sob a bandeira do programa Fome Zero e faz do projeto Bolsa Família, de renda mínima, sua principal bandeira social. É o caminho acertado?
Existem diferentes níveis de pobreza e cada um deles exige um tipo diferente de ação. Recitar a frase “não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar” não ajuda em nada, porque afirma que a única forma de se combater a pobreza é dar às pessoas meios de trabalhar. Mas essa é resposta errada para a viúva, para o órfão. Para esses, você simplesmente tem que dar o peixe. Se o governo está oferecendo assistência social a essas pessoas, especificamente, é uma boa ação. Já outro nível de pobreza exige como resposta a possibilidade de devolver ao povo o direito sobre a terra. Para aqueles que podem trabalhar, abrir o mercado de trabalho é o caminho correto. O que não podemos é pôr todos os pobres no mesmo saco, achando que a solução para os diferentes tipos de pobreza é uma só.

Se o senhor pudesse conversar com o presidente Lula a respeito da pobreza no Brasil, o que lhe diria?
Haveria duas áreas que eu abordaria. A primeira seria a crítica cristã ao capitalismo. Ao longo dos últimos 150 anos, tem havido uma crítica consistente a respeito do terceiro caminho, que não é o comunismo nem o capitalismo, e sim, um esforço cooperativo. O presidente Lula conhece esse assunto. Eu falaria a respeito desses temas sob uma perspectiva bíblica: as motivações gananciosas do capitalismo, a limitação de salários dos executivos, a diminuição da distância entre os ricos e os pobres. No Brasil, os bancos têm atacado as cooperativas, porque não desejam que esse tipo de economia se desenvolva. Isso precisa ser revertido. Um país é forte dependendo de seu esforço cooperativo. A segunda área seria do direito sobre a terra, especificamente sobre a confusa situação legal que existe no Brasil no que se refere às questões fundiárias. A burocracia é gigantesca e por isso os pobres não conseguem adquirir propriedades. E é preciso assegurar que toda a família tenha direito a possuir uma casa própria.

Em se tratando de missões urbanas, o que funciona e o que não funciona?
É preciso seguir o princípio da encarnação: estar entre as pessoas, sejam elas pobres, de classe média ou ricas. Também existe o consenso de que o Evangelho pressupõe transformação. A unidade e o estabelecimento de redes de contato são temas significativos em missões urbanas, pois quando pastores de diferentes linhas se unem e trabalham juntos, a sinergia entre a capacidade de cada um aumenta a velocidade e a profundidade daquilo que se pode alcançar. Nós, como cristãos, devemos trabalhar junto com homens de boa vontade.

A via política tem sido defendida pelos evangélicos como maneira de trazer o cristianismo para a sociedade. Contudo, apesar do aumento da representação evangélica nos parlamentos, não se nota diferença – ao contrário, políticos crentes são mais conhecidos pelos deslizes éticos e pelos escândalos nos quais se envolvem. A participação de crentes na política é proveitosa?
Essa questão dos escândalos não é um fenômeno brasileiro. Isso vem ocorrendo em diversos países do mundo como consequência do aumento no número de evangélicos nas instâncias de poder. Acredito que devemos, sim, usar a política como forma de mudar as estruturas da sociedade – mas não podemos entrar nela sem pensar, pois a falta de reflexão teológica e de um pensamento estratégico baseado em princípios bíblicos significa que acabaremos tendo muito entusiasmo, mas péssimos resultados. A política é terrível; nela, não se pode cometer erros. Então, compreender sua natureza e saber como operar na esfera política é muito diferente de lidar com igreja.

Mas os crentes devem ou não participar da política?
Você não pode simplesmente usar uma base religiosa como base de poder para a política. Fazer isso é abusar dos relacionamentos de liderança. Os católicos são muito firmes ao dizer que não se pode ser um sacerdote e participar da política. Isso é um princípio muito sábio. Na minha opinião, nenhum pastor evangélico deveria ser um político, pois essas duas esferas de atuação são incompatíveis. O problema é que não existe atualmente no Brasil um pensamento adequado sobre teologia e prática política. E até que exista, que os políticos sejam bem treinados e que haja recursos para dar suporte a esse pensamento, continuaremos presenciando escândalos.

Qual é a razão de sua vinda ao Brasil?
Estou no seu país para tentar conseguir cinco mil brasileiros dispostos a encarar um desafio. Tenho entrevistado pastores que trabalham em favelas de vinte e três cidades por todo o mundo, a que pergunto em que áreas eles necessitam de treinamento. A partir dessa percepção, criamos um programa para líderes de projetos entre os pobres. Estou em contato com seis seminários diferentes no Brasil para viabilizar a aplicação desse programa aqui. Precisamos levar estudo teológico para as favelas. Atualmente, cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo vivem em favelas. Os ministros do Evangelho que atuam nessas áreas precisam de mais formação teológica. Sem uma reflexão sobre as questões profundas com as quais eles se deparam lá, as igrejas continuarão a atuar de uma forma muito tradicional, isoladas da comunidade, incapazes de transformar o tecido social no qual estão inseridas. Só que não se pode fazer isso sem que os líderes estejam treinados. É preciso evangelizar, claro, mas sempre provocando transformação social.

Data: 03/05/2012

Fonte: Cristianismo Hoje

Entrevista com Walter McAlister


O Bispo fala do legado do pai, fundador da Igreja Nova Vida, e diz que a fé evangélica mudou muito

Por Carlos Fernandes (Revista Cristianismo Hoje)

Durante muitos anos, a voz de sotaque inconfundível foi familiar aos crentes brasileiros: 'Que Deus os abençoe rica e abundantamente', dizia o fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida pelas ondas da Rádio Relógio Federal. O missionário canadense Robert McAlister, carinhosamente conhecido no Brasil como bispo Roberto, teve papel destacado na inserção do Evangelho entre as classes médias urbanas. A denominação que fundou ajudou a mudar o conceito da sociedade acerca dos evangélicos - e, passados dezesseis anos de sua morte, seu legado é incontestável. 'Ele deixou um exemplo de seriedade e valorizou a vocação pastoral', diz, com orgulho, seu filho e sucessor no ministério, Walter McAlister Jr.

Mas os tempos e a Igreja Evangélica são outros. E Walter, mais do que ocupar o púlpito que um dia foi de Roberto, hoje é um analista do segmento no qual nasceu, cresceu e construiu sua carreira ministerial. Aos 53 anos, o bispo está lançando O fim de uma era (Anno Domini), livro no qual fala como observador e participante ativo do movimento evangélico nacional, com todas as suas facetas, crises e paradoxos. Mas a experiência própria não é a única credencial que ostenta - Walter, nascido nos Estados Unidos e naturalizado brasileiro, tem uma sólida formação acadêmica e teológica, que inclui os cursos de graduação e mestrado em disciplinas como psicologia e estudos bíblicos na América do Norte. Ordenado ministro do Evangelho em 1980, ele hoje é o bispo primaz e presidente do Colégio dos Bispos da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida, entidade que agrega 140 congregações.

O quadro que emerge de seu livro não é animador. Walter prevê o fim da Igreja - não o corpo místico de Cristo, que segundo ele 'nunca falirá', mas o atual conceito de igreja no Brasil. 'A Igreja Evangélica hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença', aponta. Como outros indícios desse mal, o bispo aponta a superficialidade, o mundanismo, a falta de ética e a corrupção. 'Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da que se alastra nos meios cristãos', lamenta. Durante esta conversa com CRISTIANISMO HOJE, Walter McAlister admitiu que lhe dói o coração ver a situação da Igreja contemporânea: 'Queria ser mais gentil. Mas há momentos em que se faz necessário e urgente dizer a verdade dura, mesmo que isso nos custe muito.'

CRISTIANISMO HOJE - Em O fim de uma era, o senhor analisa a Igreja contemporânea, e o quadro que traça não é nada animador. Trata-se de uma instituição falida?

WALTER MCALISTER - Não, a Igreja nunca falirá. Ela é o corpo de Cristo e consegue sempre atravessar os séculos, mesmo que seja por meio de um remanescente fiel. Mas O fim de uma era trata do conceito atual de igreja no Brasil, e este sim, está prestes a falir. Ela está à beira de uma série de mudanças que serão percebidas como o fim, se não da Igreja como um todo, certamente de um 'sonho' ou de um ideal que hoje ocupa o imaginário cristão.

No livro, o senhor chega a falar até mesmo do fim do atual modelo de cristianismo ocidental. Caso esteja certo em seu prognóstico, o que virá depois dele?

Historicamente, o que geralmente se segue a épocas como a nossa é um período de perdas, perseguições e desencanto. Os que se preparam para tais épocas promovem reflexão, semeando para uma nova era de vigor e devoção. Em primeira instância, haverá muito choro, revolta e medo. Haverá quem vá perguntar o que deu errado e os que se calarão, pasmos pelas perdas. Muitos fugirão dos líderes desacreditados. As coisas podem piorar ainda mais. Mas há sempre a possibilidade de renovação em meio aos escombros. O remanescente fiel se voltará para Deus em oração. Haverá redutos de oração intercessória, contrição e comunhão.

Alguns demógrafos preveem que os crentes poderão ser metade da população nacional já por volta da década de 20 deste século. Poucas nações do mundo experimentaram avanço tão notável de um segmento religioso na história contemporânea, fato que é muito festejado por líderes evangélicos - e criticado por outros tantos, que não têm enxergado qualquer mudança significativa na sociedade a partir dessa maior presença evangélica. É um paradoxo?

A Igreja Evangélica no Brasil hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença. A qualidade da nossa devoção coletiva caiu muito, embora os nossos números tenham crescido. Os que não veem mudança estão equivocados. Mudou muita coisa, sim. No livro, mostro que tanto a sociedade quanto a Igreja Evangélica visível se tornaram mais superficiais, mais fascinadas pelos meios, mais gananciosas - e ficaram menos éticas e menos sérias. Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da corrupção que se alastra nos meios cristãos.

Cada vez mais pessoas famosas, como artistas e celebridades, têm frequentado igrejas, mas essa alegada conversão parece não interferir em seu comportamento. Qual o preço disso para a fé evangélica?

A fé foi banalizada e transformada numa filosofia vazia. Em grande parte, a Igreja perdeu a sua alma. O fato de celebridades afirmarem conversão sem o necessário fruto de arrependimento é o resultado direto, e mais visível, de uma distorção da mensagem cristã. Afirmar que uma profissão pública de fé é o suficiente para que alguém se considere salvo reduz o conceito da salvação a um momento de decisão apenas. Mas Tiago disse que fé sem obras é morta. Muitos chegarão a Cristo, no último dia, fazendo uma 'profissão' de fé. Mas obterão uma resposta condenatória, por eles terem praticado o mal. Paulo disse que o justo viverá pela fé, mas também disse que haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça, conforme Romanos 2.7 e 8.

O senhor aponta os líderes evangélicos como grandes responsáveis pela crise da Igreja. Qual a sua avaliação sobre a liderança evangélica brasileira?

A liderança evangélica brasileira reúne de tudo um pouco. Ocupamos um espectro largo, que vai dos mais corruptos e hipócritas aos mais piedosos e angustiados com a situação atual. Há homens muito bons no Brasil que querem servir ao Senhor, mas são pressionados, qual Arão, a fabricar bezerros de ouro para agradar o povo e garantir, por exemplo, uma reeleição a seu posto. Mas também há lideres que vendem seus púlpitos a agendas políticas, ou pior, traem sua vocação sacerdotal se candidatando pessoalmente a cargos eletivos. Há mercantilistas que usam o Evangelho como desculpa para vender seus produtos na TV, enriquecer ou obter benesses de poderosos. Para eles, a Bíblia é um pretexto e não uma autoridade. São pessoas equivocadas ou corruptas, que criam igrejas vaidosas, vazias e superficiais. Por outro lado, há homens que se dedicam, de corpo e alma, ao serviço do povo de Deus. Não são famosos, mas estão dando sua vida em prol do rebanho do Senhor.

Por que a Igreja contemporânea tem abandonado temas antes considerados inegociáveis, como arrependimento, justificação pela fé, juízo de Deus, céu e inferno e segunda vinda de Cristo?

Porque essas não são mensagens populares. Elas incomodam aqueles que procuram na fé apenas um meio de alcançar bem estar. Somos uma civilização narcisista, uma sociedade que define o mundo a partir da sua própria vontade. Como já aconteceu inúmeras vezes ao longo da história da Igreja, a proclamação do Evangelho hoje rende-se muitas vezes às questões do dia a dia, da moda ou dos anseios da sua geração.

E quanto aos assuntos básicos da fé e da prática evangélica, como batismo, liturgia e pecado? Na sua opinião, as igrejas têm falhado no ensino?

A Igreja sofre, de modo geral, de um analfabetismo bíblico e teológico, bem como uma miopia histórica surpreendente. Pelo nível de ignorância bíblica que percebo na maioria dos cristãos, associado à ausência de piedade demonstrada pelo povo de Deus, eu diria que alguém está deixando a dever. Esse problema não acha sua fonte no rebanho, mas nos pastores. É bom lembrar que foram os líderes das sete igrejas do Apocalipse que foram cobrados pela condição dos rebanhos.

Evangélicos sempre criticaram católicos por suas concessões à religiosidade popular e às superstições religiosas. A Igreja Evangélica brasileira pratica hoje uma fé sincrética?

Sem dúvida! No que diz respeito à religiosidade popular, já ultrapassamos os católicos. Aliás, de uns tempos para cá, os católicos até estão copiando as nossas práticas populares.

É possível falar-se em unidade do Corpo de Cristo diante da infinidade de igrejas e denominações que existem hoje?

A unidade do Corpo de Cristo não é um projeto, é um fato. Ao mesmo tempo, Paulo disse que é necessário que haja divisões entre nós para que os aprovados sejam conhecidos, conforme I Coríntios 11. Logisticamente, a união institucional é impossível; sempre foi assim, desde a Igreja do primeiro século, com todas as suas divergências e ramificações. Todavia, há uma só Igreja. Quem a vislumbra como um todo vê algo estranhamente animador: há membros da Igreja invisível atuando em todos os arraiais. Há pessoas piedosas, devotadas a Cristo, com todos os seus defeitos, erros de doutrina e diferenças, que estão contribuindo para o crescimento do Reino de Deus.

Por que a evangelização clássica, aquela da visitação a lares e hospitais, dos cultos ao ar livre e do evangelismo pessoal, foi abandonada pelas igrejas?

Bem, não estou ciente de tal abandono. Há ainda muitas igrejas que visitam lares e realizam evangelismo em hospitais ou prisões. Acontece que a comunicação vem sofrendo uma revolução incrível. Talvez, no caso de cultos ao ar livre, eles tenham sido substituídos por novas formas de proclamação. Mas concordo que não há o mesmo zelo por almas perdidas que vi quando jovem. Talvez tenhamos nos tornados frios e sem compaixão pelos que estão se perdendo. É um fato triste e denuncia o esfriamento do nosso amor, inclusive pelo Senhor.

Pode-se dizer que o neopentecostalismo é um movimento de fé genuinamente evangélico?

Antes de tudo, é fundamental aqui definirmos bem os termos evangélico e neopentecostal. Primeiro: o termo neopentecostalismo não é para mim um conceito cronológico, no sentido de um movimento que evoluiu com o passar do tempo a partir do pentecostalismo e que, por isso, configuraria uma nova etapa do pentecostalismo. Nada disso. Quando falo de neopentecostalismo, refiro-me a algo que evoluiu a partir da invasão de valores neoliberais e materialistas na periferia do antigo pentecostalismo. O que resultou dessa mutação é uma espiritualidade formada em função de valores e anseios seculares, mundanos.

O que deu certo e o que deu errado no neopentecostalismo brasileiro?

O que deu errado é que eles acabaram formando valores anticristãos e levam pessoas a segui-los. Nesse caso, expandir esse tipo de fé não é nenhum mérito - na verdade, é um problema. O que deu certo - e eu não diria que 'deu certo', mas que funcionou - para o neopentecostalismo foi atender certos anseios das massas, no que se refere aos desejos dessa geração, e oferecer soluções fáceis, como qualquer profissional de marketing faria. O povo se sente explorado, impotente e vitimado. Assim, a oferta de uma certa ilusão de poder adquirido é tudo o que o povo quer. Por isso, os neopentecostais crescem numa velocidade impressionante.

A fé como produto de consumo, onde a bênção está diretamente ligada à atitude do devoto diante da organização religiosa, é a ênfase na mídia produzida pelos grupos evangélicos, particularmente na TV. É uma maneira legítima de divulgar a fé?

De forma alguma; é antibíblica, pois Deus fica em segundo plano, enquanto ocliente - o necessitado - fica em primeiro. Em vez de pregar submissão a Deus e confiança na sua vontade, que pode até se manifestar por meio de cura ou resposta a oração, vemos o benefício proclamado como o bem principal. Isso é idolatria. Além do que, a televisão em si é um meio comprometido e incapaz de formar conceitos cristãos. A presença de pastores na televisão é equívoco. Um equívoco bem-intencionado, mas ainda assim um equívoco.

A Igreja Cristã Nova Vida é neopentecostal?

Não a considero neopentecostal, como muitos a classificam, pois ela nem de longe compactua com esses valores e anseios. Somos 'neo' por termos sido fundados há pouco tempo, em termos históricos, e somos 'pentecostais' por crermos na continuidade dos dons manifestados no dia de Pentecostes. Mas não somos neopentecostais, pois rejeitamos essa espiritualidade mundana e todas as suas práticas. Na verdade, as origens da Igreja Cristã Nova Vida se reportam à Rua Azuza, em Los Angeles, em 1906. Meu tio-bisavô, R.E. McAlister, levou a mensagem pentecostal de lá para o Canadá, onde ajudou a fundar as Assembleias de Deus canadenses. Seu sobrinho, Walter - meu avô -, foi superintendente nacional durante os anos 50 e o filho dele, Robert, foi o nosso fundador. Fomos fundados, então, em cima dos firmes alicerces de Azuza e não de movimentos análogos posteriores. Assim, meu pai não 'brotou' no Brasil com uma nova teologia inventada; ele deu continuidade à teologia clássica que vinha se desenvolvendo em seu país desde o avivamento de Azuza.

Seu pai, carinhosamente chamado pelos crentes brasileiros de bispo Roberto, teve participação direta na explosão do neopentecostalismo. Diversos líderes dessa corrente - Edir Macedo, fundador da Igreja Universal; Romildo Soares, que deu origem à Igreja da Graça; e Miguel Ângelo, da Cristo Vive - são oriundos da Igreja de Nova Vida e foram seguidores de Roberto. Olhando agora em perspectiva, como o senhor avalia este legado? Acha que o bispo McAlister cometeu equívocos em sua trajetória ministerial?

Todos cometem equívocos. Mas qualquer pessoa com um mínimo de informações não estereotipadas e superficiais sobre o bispo Roberto sabe que não se pode atribuir as práticas neopentecostais negativas aos equívocos do meu pai. Veja que muitos ex-católicos fundaram seminários evangélicos conceituados, mas ninguém aponta o papa como pai desses seminários. Ora, do mesmo modo, é um equívoco apontar meu pai como ligado diretamente a esses movimentos. O fato de a Nova Vida ter sido o lugar onde esses líderes começaram sua jornada cristã não faz de meu pai seu mentor. Basta ler seus livros, como O encontro real,Dinheiro - Um assunto altamente espiritual e Bem-vindo ao Reino de Deus, entre outros, para perceber que, mais de trinta anos atrás, ele já denunciava como negativas as práticas que depois se tornariam tão conhecidas e associadas ao mundo neopentecostal.

Por que a Nova Vida dividiu-se em duas correntes?

Porque houve quem não concordasse com a direção que dei à denominação após a morte de meu pai. Houve ainda quem vislumbrasse outro para sucedê-lo como primaz. Eles estavam no seu direito de achar isso.

Isso não foi resultado da descentralização administrativa, já que cada igreja local recebeu autonomia?

Bem, vamos considerar que ajuntamento de facções não constitui união. Ao darmos independência, cada um pôde escolher pertencer ou não. A união tornou-se muito mais legítima, uma vez que passou a ser uma questão do coração e não de um nome em comum apenas. A Igreja Cristã Nova Vida é uma associação voluntária de igrejas independentes, que afirmam o bispo primaz como o seu pastor. Mas cada pastor opta livremente por seguir minha liderança, que é pastoral em palavra e exemplo. Os líderes que não desejam continuar a andar conosco estão perfeitamente livres para sair, sem perder pensão ou plano de saúde, nem tampouco a sua igreja. A minha atuação, assim como a do Colégio de Bispos, funciona como numa igreja local - só que os nossos membros são ministros ordenados. Nós velamos pelo bem estar de cada pastor, pela ética, pela harmonia doutrinária e pela transparência e a responsabilidade fiscal. Os que desejam andar conosco empenham sua palavra de viver dentro desses parâmetros, afirmados anualmente na assinatura da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida.

Uma reunificação das diferentes vertentes hoje faria sentido?

Isso não me parece plausível. Uma reunificação teria de passar pelas mesmas questões que nos separaram desde o início. Hoje existem muitas 'Novas Vidas', igrejas que saíram de nós e de algum modo mantêm o, digamos, sobrenome por se reportarem ao bispo Roberto como fundador. Não há planos para reunificá-las. Acho que seria como querer transformar o português, o espanhol e o francês novamente em latim. Muito tempo passou, doutrinas foram reavaliadas, posturas foram firmadas e cada linha de atuação acabou por se distanciar das outras. Embora tenhamos esse mesmo sobrenome, somos igrejas realmente diferentes.

As diferenças entre igrejas tradicionais e pentecostais já não têm a mesma diferença de outros tempos. É como se houvesse uma terceira via teológica, misturando as características dos dois grupos. O senhor acha isso bom ou ruim?

Para responder, é preciso analisar caso a caso. Há igrejas tradicionais que realizam cultos nos moldes neopentecostais. Não creio que isso seja benéfico. Pelo contrario, é um modus operandi esquizofrênico, pois nos cultos tradicionais essas pessoas abraçam as máximas da tradição, mas em determinados momentos abandonam essas máximas para desfrutar de métodos neopentecostais. Por outro lado, há pentecostais que estão se reavaliando. E, consequentemente, buscando trazer do passado práticas e noções bíblicas e benéficas que claramente foram perdidas durante a ruptura entre os tradicionais e os pentecostais, para não falar da ruptura que houve durante a Reforma Protestante. Concordo que houve uma mistura e creio que cada igreja seria muito bem servida pelos seus lideres se voltasse a valorizar suas próprias origens. Afinal, uma tradição não é uma prisão, e sim um lar.

O senhor diz em seu livro que se sente solitário no ministério. Quais os reflexos dessa solidão na vida de um ministro do Evangelho?

Essa solidão nos remete ao silêncio e a uma reavaliação constante de motivações. Ou vivemos perante a face de Deus intencionalmente ou buscamos nos outros a justificação de nosso ministério e nossa vida. O primeiro é um caminho difícil, mas necessário. O segundo é vaidade e correr atrás do vento.

Data: 23/05/2011

Fonte: Cristianismo Hoje (30nov2009)

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