FÉ OU CRENÇA?
A crucial diferença entre crer e ter fé


Por Alan Capriles

A confusão que se faz entre fé e crença é um equívoco tão comum quanto perigoso, mas desconfio que essa ignorância e risco não ocorram por acaso. Por mais incrível que possa parecer, esse problema começa em nossas bíblias, onde uma falha na tradução tem induzido milhões de leitores ao erro. Um equívoco dessa natureza poderia ser facilmente reparado, bastando que os tradutores corrigissem o texto, ou nos alertassem a respeito disso, mas não há sequer uma nota de rodapé sobre o assunto em nossas versões da Bíblia.[1] Como resultado, temos traduções que falham em pontos cruciais e que se distanciam daquilo que o autor queria realmente dizer.

É bem verdade que o equívoco entre fé e crença tem raízes muito mais antigas do que se possa imaginar e seria injusto colocar a culpa somente nos tradutores modernos. O assunto é mesmo tão antigo e crucial que fico me perguntando se a simples explicação da diferença entre crer e ter fé não teria evitado o absurdo das Cruzadas e da chamada Santa Inquisição – vergonhosas páginas da história cristã, onde tanto sangue se derramou em nome de Cristo. Sei que pode parecer que estou exagerando, mas erros de interpretação podem realmente ocasionar consequências catastróficas e é bem possível que esse equívoco tenha sua parcela de culpa nesses terríveis episódios.

As raízes desse problema remontam ao século IV, quando São Jerônimo, a pedido do papa Dâmaso I, traduziu a Septuaginta e os manuscritos gregos do Novo Testamento para o latim, resultando no que ficou conhecido como Vulgata: a primeira versão da Bíblia para um só idioma. Foi nessa inédita e ousada tradução que a confusão entre fé e crença teve seu início.

Ao deparar-se com o verbo grego pisteuou, que significa ter fé, São Jerônimo precisou encontrar um termo latino que o substituísse – uma escolha que certamente não foi fácil.[2] Ocorre que na língua grega – idioma mais rico que o latim – o substantivo fé (pistis) possui um correlato verbal (pisteuou), ou seja, a fé pode ser conjugada verbalmente, ao contrário do que ocorre no português e demais línguas de origem latina[3]. Desta forma, não havendo verbo em latim para o termo grego que significava a ação da fé, São Jerônimo optou por um verbo latino que substituísse pisteuou e que, a seu ver, se aproximava do que significava ter fé. Sua escolha foi o verbo credere (crer), que deriva de cor do (dou o coração).[4] O problema está em que o verbo crer também é sinônimo de acreditar e foi esse último sentido, o de crença - e não o de “dar o coração” - que prevaleceu com o passar dos séculos.

A escolha de Jerônimo pode ter sido a melhor em sua época, mas atualmente (e desde os últimos mil anos!) tornou-se um problema para o entendimento de diversas passagens neotestamentárias.[5] Existe mais de uma centena de versículos no Novo Testamento onde os leitores facilmente confundirão fé com crença, pois onde agora lemos o verbo “crer” originalmente o autor falava de “fé”.[6]

Não obstante, mesmo que São Jerônimo tivesse substituído o verbo grego pisteuou por uma equivalência dinâmica[7] - o que resultaria na tradução ter fé - ainda assim precisaríamos compreender o que o termo fé (pistis) e sua ação (pisteuou) significavam naquela época.

Nos dias atuais a maioria das pessoas define a “fé” como meramente se “acreditar” em alguma coisa. Entretanto, a fé praticada pelos primeiros cristãos tinha um significado muito mais profundo do que apenas concordar que Jesus tenha existido, ou acreditar em seus feitos. Originalmente, “fé” tinha o sentido de confiança, consonância, comprometimento, lealdade.[8] Ou seja, ter fé em alguém significava estar em sintonia com essa pessoa. Não se tratava de apenas acreditar em alguma doutrina, mas sim de se estar comprometido com esse ensinamento. Desta forma, para os primeiros cristãos, somente aquele que praticasse o que Cristo ensinou seria visto com alguém que tinha fé em Jesus. E se alguém, mesmo sem conhecer nada sobre Jesus, andasse de acordo com os ensinamentos de Jesus, tal pessoa estaria demonstrando ter mais fé em Cristo do que um cristão desobediente.[9]

Mas, como antes já foi dito, esse conceito primordial de fé acabou sendo deturpado no decorrer dos séculos e passou a ser substituído por uma ideia de crença.[10] Agora já não tem muita importância quem você é, mas sim aquilo em que você acredita. Obviamente, isso não ocorreu da noite para o dia, mas em etapas muito sutis, geração após geração. Como exemplo, cito um dos sermões de Lutero, onde ele explica que “a fé não requer informação, conhecimento e certeza, mas uma livre entrega e uma feliz aposta na bondade impercebida, não experimentada e desconhecida [de Deus]”.[11] Isso nos demonstra dois fatos importantes: primeiro, que já no século XVI o conceito de fé precisava ser definido, pois havia quem pensasse em fé como informação, conhecimento e certeza; e, segundo, que esse conceito já perdera o sentido original de consonância e comprometimento, passando a ser visto – ao menos para Lutero – como uma feliz aposta na bondade de Deus. Apesar de ser uma bela definição para fé, a realidade é que, como vimos há pouco, tal ideia não condiz perfeitamente com o conceito de fé que se tinha na palestina do primeiro século.

Quando, por exemplo, Jesus ensinou que “tudo é possível ao que crê”, não devemos entender esse crer como meramente acreditar. Uma tradução mais correta seria “tudo é possível ao que tem fé”, ou seja, àquele que está em sintonia com Deus. Feita essa ressalva, torna-se mais fácil compreender o que Jesus quis dizer com “aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará”. Se o termo crer desse versículo fosse meramente acreditar alguém poderia dizer que Jesus houvesse mentido, pois milhares de pessoas realmente acreditam em Jesus, mas nunca fizeram qualquer obra sequer parecida com o que ele realizou. No entanto, se corretamente compreendemos que o Senhor está falando de estarmos em consonância com ele, ou seja, seguindo o exemplo que ele nos deixou, então desaparecem as dúvidas, pois dificilmente encontra-se alguém que realmente ande como Jesus andou, especialmente no que concerne à sua prática de renúncia e constante oração – mas, quem o fizer, receberá do Pai a mesma virtude que nele havia, podendo realizar as mesmas obras e outras ainda maiores.

Mas o desconhecimento que a maioria das pessoas tem acerca desse problema é tão comum quanto previsível. De fato, nossas versões do Novo Testamento em português dão mesmo a entender que a salvação é apenas uma questão de crença, o que nos induz a concluir que basta acreditar que Jesus existiu, ou que ele morreu na cruz por nossos pecados, para sermos salvos.[12] Mas a salvação não é uma questão de crença e sim de fé. E ter fé em Cristo significa estar em harmonia com seus ensinamentos – ou, como prefere dizer João (tanto em seu evangelho quanto nas epístolas), ter fé significa permanecer nele. E “nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.” (1João 2:6) Paulo prefere usar a expressão “estar em Cristo”, o que também traduz o conceito primordial de fé – que significava estar em sintonia com Deus, ou seja, com a sua vontade, que se resume no amor. Portanto, a fé salvadora é um caminho no qual devemos andar e não uma crença que precisamos acatar.

Quando Cristo afirmou que ele é “o” caminho para o Pai, sua clara intenção foi apontar a si mesmo - tanto pela verdade de seus ensinamentos, quanto pela prática de sua vida - como nosso referencial de salvação. Ele não estava falando de crença, mas de nós andarmos em sintonia com ele, ou seja, com o que ele nos ensinou e com a forma humilde e cheia de compaixão como viveu. Isso é ter fé em Cristo e é somente neste sentido que Jesus é o caminho, a verdade e a vida (João 14:6). Note que esse versículo não fala explicitamente de fé, nem de crer, mas ele sempre é interpretado como se fosse uma questão de crença, ou seja, como se a salvação ocorresse por se acreditar que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Esse equívoco ocorre porque o atual conceito de fé está de tal forma contaminada pela ideia de crença, que os leitores do Novo Testamento ficam condicionados a interpretá-lo dessa forma incorreta.

A solução, obviamente, não é deixar de ler a Bíblia, ou aguardar por uma versão mais fiel ao texto grego, algo que pode jamais ocorrer. Minha sugestão é que façamos uma releitura do Novo Testamento, na qual estejamos cientes do verdadeiro sentido da fé e apercebidos de que esse termo muitas vezes aparece substituído pela conjugação do verbo crer. Para muitos talvez não seja uma releitura, mas uma primeira leitura, pois quem aprendeu que "basta acreditar em Jesus para ser salvo" raramente irá se interessar por seus ensinamentos. De fato, para que seguir o que Jesus ensinou se, para ser salvo, basta acreditar que ele existiu? Essa conclusão equivocada explica porque a maioria dos evangélicos não se interessa pelos evangelhos; e aqueles que os leram geralmente fizeram-no mais por curiosidade do que para andar no caminho apontado e trilhado por Cristo. Sendo assim, a correta compreensão da fé não somente trará o esclarecimento acerca desse assunto, como despertará o real interesse por se conhecer e praticar o que Jesus nos ensinou.

Outra consequência de uma correta compreensão da fé será uma atitude mais misericordiosa para com o próximo, especialmente para com aqueles que adotam diferentes crenças religiosas. Se deixarmos de confundir fé com crença deixaremos de ser preconceituosos e intolerantes, pois conseguiremos enxergar cada pessoa pelo que de fato ela é, e não julgando-a segundo o que acredita. O fato é que nossas crenças nem sempre revelam nosso ser, mas nossas atitudes perante o próximo evidenciam nossa fé – a verdadeira fé que, em seu mais puro sentido, revela-se na prática do amor.[13]
Alan Capriles
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Para melhor entendimento, aconselho a leitura de todas as notas de rodapé. _______________________________________________________________

NOTAS

[1] A única exceção que conheço é a tradução de Huberto Rohden , a qual recebeu o título de "A Mensagem Viva do Cristo" e que contém somente os quatro evangelhos.

[2] O trecho de uma carta que São Jerônimo teria escrito ao papa Dâmaso I revela o seu temor para com a tradução do texto bíblico: "Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova […] Qual, de fato, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus". (Obras de São Jerônimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425).

[3] O mesmo ocorre na língua inglesa. Apesar de não ser um idioma de origem latina, o inglês não possui verbo para o substantivo faith (fé) e, sob a influência da Vulgata, as versões inglesas do Novo Testamento substituíram o verbo grego pisteuou por believe (crer).

[4] ARMSTRONG, Karen – Em Defesa de Deus, pág. 98.

[5] Existe a suspeita de que São Jerônimo teria sido coagido pelo papa Dâmaso I a fazer alterações em alguns trechos da Vulgata. Sendo isso verdade, é possível que o próprio papa tenha sido pressionado por Teodósio, o segundo imperador romano supostamente cristão e que tinha interesses de tornar o cristianismo mais aceitável para os pagãos.

[6] Mais uma vez, a única exceção parece ser a versão de Huberto Rohden, onde ele optou por ter fé como tradução para o verbo pisteuou. Por exemplo, o famoso “para que todo aquele que nele crê não pereça” foi traduzido por Rohden como “para que todo aquele que nele tiver fé não pereça”. Interessante observar que essa não foi sua primeira versão das Escrituras. Rohden, que foi padre jesuíta até 1945, já traduzira todo o Novo Testamento diretamente do grego, mas, estranhamente, nessa primeira versão manteve o equívoco da Vulgata. Teria ele sido pressionado pela igreja católica para manter a tradição? Ou ainda não havia se dado conta da gravidade do problema? Anos depois, quando livre do catolicismo, Rohden escreveria o seguinte alerta, em tom de desabafo: “A substituição de ter fé por crer há quase dois mil anos está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo.” (A Mensagem Viva do Cristo, pág. 91)

[7] A “equivalência dinâmica” é o método de tradução que procura transmitir o sentido de determinada palavra, ou frase, tal como era compreendida na época em que foi originalmente escrita.

[8] ARMSTRONG, Karen – Em Defesa de Deus; São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pág. 98. RODHEN, Huberto – A Mensagem Viva do Cristo; São Paulo: Editora Alvorada, 1983, pág. 90 e 91. CHOURAQUI, André – A Bíblia: O Evangelho Segundo Mateus; Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

[9] Algumas passagens nos evangelhos nos conduzem a tal conclusão. Para se compreender melhor o assunto, aconselho a leitura de “A salvação segundo Jesus Cristo”, onde apresento essa tese de maneira pormenorizada.

[10] Fé não é crença, mas as seguintes definições de fé, formuladas no último século, demonstram como seu conceito está completamente deturpado por uma ideia de crença:
"Fé: crença, não baseada em provas, no que é contado por alguém que fala sem conhecimento de coisas sem paralelo." (Ambrose Bierce)
"A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável." (Henry Louis Mencken)
"Fé é crença sem evidência." (Sam Harris)

[11] Lutero, Sermão 25:7, em Pelikan, The Christian Tradition, IV, p. 163.

[12] O atual conceito de salvação também necessita ser revisto, mas espero escrever a respeito disso em outra ocasião.

[13] “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gálatas 5:6) “Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 2:26)
Alan Capriles

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